Reforma Protestante
No dia 31 de outubro de 1517 Martinho Lutero afixou suas afamadas 95 teses à porta da igreja do castelo de Wittenberg. No dia 31 do mês em curso, portanto, estaremos comemorando 490 anos de reforma protestante. É isso mesmo! (Todavia, a reforma protestante não começou necessariamente no dia 31/10/1517. Não podemos nos esquecer dos pré-reformadores, do Renascimento, humanismo etc.).
Não pretendo fazer uma releitura romanceada da reforma. É sabido por todos, que a reforma do século XVI foi gestada num útero de fortes conflitos, alguns até sangrentos. As causas nem sempre foram de ordem religiosa. Fatores políticos, econômicos e religiosos estão misturados num mesmo caldeirão. Todavia, a ambigüidade deste movimento, seus caminhos e descaminhos, avanços e fracassos, ganhos e perdas, não negam a sua importância para toda a cristandade, sendo ainda hoje um desafio e um convite para a igreja atual. Nosso desafio “maior” é olhar para a reforma com os pés fincados no chão do nosso momento histórico. Sinteticamente, pontuarei alguns caminhos deste marco decisivo na história do povo de Deus e sua relevância para a igreja do século XXI.
A palavra “reforma”, quiçá, dificulte a nossa compreensão do movimento ocorrido no século XVI. Entretanto, mais um do que um simples conserto, Lutero, motivado por um profundo anseio popular da época, objetivava uma mudança profunda e substancial da igreja e da sociedade. Reforma, era sinônimo de “conversão”, de mudança e correção de percurso. Deste modo, tratava-se de um projeto necessário, inadiável e urgente. Ainda hoje, necessitamos de reformas nas igrejas, bem como, urge como uma necessidade global. É como higiene corporal. Deve ser permanente. Posto que, reforma se exige como resposta a novos desafios e como adequação a novas circunstâncias. Logo, quem não muda em meio às transformações da história, torna-se obsoleto, disfuncional.
Uma premissa característica da reforma é que “os direitos de Deus deveriam ser respeitados”. Lutero se opôs à usurpação de autoridade divina em igreja e sociedade de seu tempo. Logo, “nenhuma realidade histórica condicional pode arrogar para si as prerrogativas da incondicionalidade” (princípio protestante, segundo Paul Tillich). Nesta perspectiva, a reforma do século XVI teve nitidamente uma natureza profética (denuncia e resistência). A igreja hodierna, encorajada pelo espírito profético da reforma, deve denunciar os ídolos do seu tempo. Conforme o teólogo Paulo Nascimento, “os ídolos são realidades históricas que se colocam contra o verdadeiro Deus. O ídolo não é algo do passado, não é etéreo, nem está circunscrito unicamente à dimensão religiosa como comumente se pensa. Pelo contrário, os ídolos são realidades atuais que configuram a sociedade, determinando a vida e a morte da maioria das pessoas”. Alguns ídolos do nosso tempo, a saber: a riqueza, o poder, o Estado, o mercado, o sexo, a ideologia neoliberal.
Por conseguinte, o Teólogo de linhagem luterana, Gottfried Brakemeier, nos diz que o “dia da Reforma” é um dia comemorativo e programático. “Comemorativo, porque há uma história que precisa ser lembrada, e que apesar, de todos os seus descaminhos, possui aspectos instrutivos e não deixa de ser motivo de gratidão. Programático, porque deve estar na agenda da igreja como uma lembrança de uma urgência atual, que nos conclama à ação”.




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