Entre o Logocentrismo e a Verbolatria:

Publicado em 20 de novembro de 2007 por Paulo dos Santos Nascimento

Uma avaliação das relações entre o protestantismo evangélico brasileiro e a Bíblia

Introduzindo

À guiza de introdução, cabe dizer logo que o presente texto é um recorte. Ele faz parte de um conjunto de ensaios ainda por publicar cuja preocupação é refletir sobre o conjunto de relações que o protestantismo evangélico no Brasil vem travando com (1) sua própria tradição, (2) com a Bíblia, (3) com a missão e (4) com o relacionamento com as igrejas diferentes. Dessa forma, essa introdução só existe aqui, e não no projeto original.

A Bíblia é um patrimônio universal. Não pertence a uma igreja em particular, embora tenha sido parida no interior delas. Todavia, ela permanece sendo um ícone primordial da tradição do protestantismo em todo mundo. Por vezes tem-se a idéia de que a Bíblia pertence ao protestantismo. Por si só, isso demonstra a centralidade que a Bíblia ocupa nessa tradição. São exatamente essas as justificativas para se refletir sobre as relações entre o protestantismo evangélico brasileiro e a Bíblia. A nossa suspeita aqui é que a centralidade dada à Bíblia aí, em lugar de promover relações em continuidade com o próprio “espírito da Bíblia”, vem gerando dissonâncias antagônicas a esse espírito. Tentei resumi-las inventando dois neologismos: logocentrismo e verbolatria, ambos aparentados com a interpretação literalista das Escrituras.

Permanece sendo escandaloso que o texto gerado no chão da vida como expressão das lutas e esperanças do povo de Deus em marcha, venha sendo instrumento de uso ideológico e legitimador de relações de opressão, conflitos e antagonismos eclesiásticos e conflitos com a mentalidade do homem contemporâneo. Esse artigo advoga, portanto, uma leitura da Bíblia que sirva como parceira na promoção da “vida em abundância”. Se quisermos reafirmar a centralidade das Escrituras em nossa tradição, que a afirmação da vida seja nosso viés de interpretação dos textos sagrados, já que eles só são sagrados justamente porque, em meio a altos e baixos, tematizam a vida e sua afirmação.

1. O texto bíblico e suas relações com a história e com a vida

1.1 O texto bíblico e suas relações com a história

O Cristianismo poderia ter sido uma das muitas religiões ágrafas[2] que existem, a exemplo de muitas religiões africanas e orientais. Mas não quis. Preferiu, a exemplo das demais religiões abraâmicas – Judaísmo e Islamismo – ser mais uma “religião do livro” (Antonio Magalhães).

De fato, não pode haver dúvida quanto ao lugar da linguagem na experiência humana. Embora seja lugar-comum pensar que a distinção entre os humanos e as outras espécies animais se dê no nível do pensamento, para algumas correntes behavioristas da psicologia contemporânea é no nível da linguagem que se dá a grande distinção do homem em relação às outras formas de vida animada. Na opinião de Feuerbach, inclusive, a linguagem deve ser vista como a raiz da cultura.

Se se parte do pressuposto de que toda e qualquer idéia necessita ser veiculada lingüisticamente (já que não existem idéias puras fora da cabeça de Platão), é correto afirmar que todo texto – inclusive os textos bíblicos -, assim como as demais expressões simbólicas de linguagem, são testemunhos históricos de certo momento. Produções textuais como a Bíblia, assim como produções simbólicas e artísticas, são testemunhos históricos porque estão intimamente ligados às condições dadas da situação de sua produção. Disto testemunha a pesquisa arqueológica, ao se debruçar sobre o material simbólico no interior das cavernas, tal como sobre o resto do material cultural pré-histórico. A esse favor, também o historicismo crítico é testemunha, já que, para essa tendência de pesquisa histórica fortemente enraizada a partir do século XIX, qualquer texto é revelador do mundo em que foi produzido, e carrega em si suas ideologias, suas aspirações, suas ambigüidades, e sua cosmovisão geral. Não devemos pensar que a Bíblia esteja excluída dessa constatação, qualquer que seja o nosso conceito de revelação. Destarte, parece não haver o que se discutir quando se trata de afirmar que toda produção textual é “filha de seu tempo”, ao revelar explicitamente as condições dadas quando de sua produção, ou ao revelar simbolicamente os anseios, ambigüidades e utopias do momento de sua época. Creio que os autores da Bíblia, para além de qualquer outra literatura religiosa, souberam fazer isso com maestria.

Surge, todavia, um problema de natureza hermenêutica. Todo texto, obviamente, deseja comunicar uma idéia, ainda que idéias afins apareçam necessariamente em torno do tema central que se quer comunicar. Trata-se da intenção do autor, que, na maioria das ocasiões, já não existe. Dessa forma, como garantir que o sentido de um texto é revelado pelo simples acesso aos dados da época em que apareceu? De acordo com Paul Ricoeur, estaríamos diante de uma “interpretação romancista”, já que é impossível, ainda que se possuam todos os dados da realidade originária do texto, chegar exatamente àquilo que o autor intencionou. Para Ricoeur, com a ausência do autor, o texto deixa de ter dono, e a leitura passa a depender necessariamente do atual intérprete. Em suas palavras:

Não a intenção do autor, que se supõe estar escondida por trás do texto; não a situação histórica comum ao autor e seus leitores originais (…). O que se deve tomar posse é do significado do texto em si, concebido de um modo dinâmico como a direção do pensamento aberto pelo texto (Ricoeur, 2004, p. 24).

Fica claro, no pensamento de Ricoeur, que o problema não diz respeito à relação do texto e sua situação histórica de origem. A grande dúvida é: até que ponto a situação histórica que fomentou o texto pode oferecer subsídios para a compreensão correta daquilo que o autor quis transmitir? Afinal de contas, há que se lembrar que o texto está relacionado primariamente ao autor, e secundariamente à realidade que envolve a este. Quem escreve o texto é um “agente histórico”, certamente marcado pelas contingências de sua época, mas profundamente preso a sua própria subjetividade. Os dados da realidade lhe são apenas seu material, já que todo dado é mudo em si mesmo, e fala somente mediante interpretação. Por isso, para compreender o texto seria necessário ir além do material histórico que lhe fomentou. Seria necessário ir ao autor, o que obviamente é inviável.

Dessa maneira, só é possível chegar a uma conclusão: toda comunicação textual, incluindo a da Bíblia, é incompleta e aberta. Incompleta porque, apesar de revelar importantes aspectos da situação histórica de sua base, falta-lhe o autor e sua intencionalidade. Aberta porque o intérprete, ao se apropriar do texto, encontra-se diante de horizontes e perceptivas sempre novos, e diante da possibilidade de ampliar o mundo restrito pelos limites da linguagem (Feuerbach).

Ao que tudo indica, cada igreja pensou sua própria maneira de vencer essa dificuldade hermenêutica. A Igreja Católica pôs, desde cedo, a responsabilidade da interpretação das escrituras nas mãos do Magistério Eclesiástico. A partir da década de 1970 tornaram-se conhecidos naquela igreja os “círculos bíblicos”, que, animados pela abertura proporcionada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), queriam recolocar a Bíblia na mão do povo. No entanto, até hoje os intérpretes católicos necessitam submeter seus escritos ao nihil obstat (“nada impede”) do Magistério Eclesiástico. Por outro lado, o protestantismo quis assimilar a idéia de Lutero quanto à iluminação do Espírito na interpretação das escrituras. Lutero afirmava que a fé simples e a iluminação do Espírito seriam suficientes no momento em que o crente se pusesse diante de Deus para ler a Bíblia. Todavia, parece que essa saída hermenêutica contribuiu nocivamente para que o protestantismo se tornasse uma religião com uma vocação à fragmentação incontrolável. Em outras palavras, o protestantismo tem tido que enfrentar a seguinte contradição: se o Espírito é quem ilumina a interpretação das escrituras, qual das milhares de interpretações protestantes procede do Espírito?

É essa variedade das interpretações que funda as diversificadas igrejas evangélicas. E o povo sabe disso muito bem. O povo sempre se pergunta: “se Deus é um só, por que tanta Igreja diferente?”. E ainda: “se a Bíblia é uma só, por que tanta diversidade religiosa?”. São perguntas simples, mas que revelam uma sabedoria intuitiva. O povo não tem as respostas, e a diversidade das igrejas e das interpretações se traduz, muitas vezes, em desprezo às religiões[3]. No afã de captar a interpretação correta, que traduzisse os exatos desígnios divinos, os teólogos, especialmente a partir do século 19 para frente, se apropriaram de duas ciências: a hermenêutica e a exegese. Para nossa tristeza, nem a hermenêutica nem a exegese conseguiram resolver o problema do conflito das interpretações. Primeiro, porque com elas instalou-se uma nova confusão: como se deve interpretar a Bíblia: como a fé simples dos fiéis, ou com os recursos modernizantes daquelas ciências teológicas?[4] Segundo, porque logo apareceram exegeses e hermenêuticas partidaristas: uma exegese-católica, uma hermenêutica-protestante, e vice-versa, prorrogando a solução para o nosso problema da interpretação da Bíblia. Os textos eram os mesmos, a disposição para compreendê-los da melhor maneira era a mesma, mas os olhos eram diferentes, e é aí que está toda a diferença.

E a dúvida permanece: em matéria de interpretação, quem está com a verdade? É costume respondermos: “a verdade está com a minha Igreja”. Esquecemos que do outro lado do muro alguém está dizendo a mesma coisa. Pior ainda é quando todos dizem: “a verdade está comigo”. Sei que a isso se seguem duas reações distintas. Para o cristão que professa a “interpretação verdadeira”, só resta anatemizar o vizinho que diz a mesma coisa. Para o não-cristão que está de fora, assistindo ao espetáculo, só resta relativizar tudo e dizer: “ninguém está com a verdade”. Diante desse escândalo da fé, os não-religiosos fazem coro com o romance Noites das mil e uma noites, de Naguib Mahfouz:

A verdade não traçou para ninguém uma trilha até ela, e não privou ninguém da esperança de alcançá-la, deixando as pessoas correndo nos desertos da perplexidade e se afogando nos mares da dúvida; e aquele que pensa que a atingiu dela se afasta, e aquele que pensa que dela se afastou perdeu seu caminho. Portanto, não há como alcançá-la e não há como evitá-la: ela é inescapável (citado por Magalhães, 2000, p. 5).

1.2 O texto bíblico e suas relações com a vida

É coerente que nossos exemplares da Bíblia tragam na capa a inscrição “Bíblia Sagrada”. Carlos Mesters nos adverte a esse respeito que a sacralidade da Bíblia não está numa suposta origem sobrenatural, ou numa noção metafísica de inspiração. A Bíblia é sagrada porque tem como tema central o que há de mais sagrado: a vida. Semelhantemente, Jean-Yves Leloup explica as inúmeras contradições presentes nos textos sagrados a partir das inúmeras contradições da própria vida[5]. Em outras palavras, isso corresponde a dizer que a Bíblia está cheia de contradições porque está cheia de vida.

Karl Barth, como é bem conhecido, dizia ser dever do (a) teólogo (a) ter a Bíblia numa das mãos e o jornal do dia na outra. Isso tipifica perfeitamente a relação entre Bíblia e vida. Constantemente nos encontramos numa dúvida cruel no exato momento da interpretação: devemos partir da Bíblia para a vida, ou da vida para a Bíblia? Creio que o desafio seja fazer as duas coisas com muita perspicácia. É necessário lembrar sempre que a Bíblia nasce no chão da vida. Nela se encontram os anseios de nações inteiras até os anseios de indivíduos comuns. Nela se encontra de forma desnudada a trajetória de um povo e de indivíduos que relacionavam seu destino à Aliança com Javé e com Jesus. Tendo nascida no chão da vida, são ilegítimas todas as interpretações que violentam a vida, porque isso é uma contradição flagrante. Tendo nascida no chão da vida, é legítimo que as pessoas enxerguem a si mesmas na interpretação que fazem da Bíblia. Geralmente é isso que se espera dos círculos bíblicos nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) e das Escolas Bíblicas Dominicais (EBD’s). Na inter-relação entre os sofrimentos, as esperanças, os desencontros e as vitórias do povo bíblico as pessoas de hoje encontram força no Espírito e são desafiadas a erguer a cabeça diante das inevitáveis ambigüidades de nossa experiência cotidiana.

Logocentrismo é a palavra que eu uso para me referir a uma tentativa de enclausuramento da Bíblia num passado de revelações que já não existe. Sendo um livro de revelações passadas, a Bíblia só pode se relacionar com a vida no modelo jurídico. Nesse modelo, só nos resta ver nas entrelinhas das experiências ali presentes os “mandamentos” a serem seguidos também agora. A vida que se vive agora se torna apenas o campo onde os “princípios eternos” devem ser colocados em prática, a despeito da ira e da condenação divinas. Toda contextualização fica desautorizada, uma vez que abre precedentes para que leis e ordenanças fiquem isoladas no lugar onde surgiram: no passado. Minha opinião é que nesse modelo de relação jurídica com a Bíblia, nossa ostentação protestante de “religião neotestamentária” fica sem sentido, uma vez que o Novo Testamento nada mais representa que uma “Nova Lei”, exatamente como pensava Tertuliano, um dos mestres patrísticos. No mais, com o neologismo logocentrismo quero remeter à atitude reducionista de uma leitura bíblica encurvada sobre si mesma – a Bíblia pela própria Bíblia, sem interconexões com a vida e mais especificamente com os grandes temas de nossa agenda contemporânea.

Na condição de texto produzido no chão da vida, a Bíblia deve irradiar sua luz sobre a vida que se vive agora, e deve ser irradiada por essa mesma vida. A aproximação do texto bíblico, nesse modelo, não se dá com as intenções jurídicas de quem vai à Bíblia à procura de mandamentos, ou de “regras de fé e prática”. Do contrário, a aproximação se dá impulsionada pelo sentimento de continuidade da condição de povo de Deus em marcha. Nessa aproximação, as lutas, as vitórias e as derrotas do povo bíblico são identificadas em continuidade com as lutas, vitórias e derrotas do povo de Deus que hoje lê a Bíblia. É como se essa vida que agora vivemos também fosse bíblica, ou melhor, também fosse Bíblia. Texto da Bíblia e texto da vida seriam uma coisa só, superando a superposição tão comum – tanto entre protestantes quanto entre católicos – do texto da Bíblia ao texto da vida.

2. Literalismo bíblico: uma cegueira sistemática

2.1 Tensões entre leitura científica e leitura popular da Bíblia

Ler a Bíblia não é um ato fácil. As dificuldades da leitura da Bíblia se refletem nas diversificadas igrejas, cada uma fundada sobre uma leitura diversificada. Obviamente não estou reclamando aqui por nenhuma “hermenêutica monolítica”, uniformizante, como se só existisse uma interpretação correta da Bíblia. Todo texto, principalmente o texto bíblico, é polissêmico, e merece ter sua polissemia respeitada. A dificuldade da leitura bíblica a que me refiro está no fato de cada uma das interpretações eclesiais reclamarem para si o status de “interpretação verdadeira”. Eu, por exemplo, tive minha educação religiosa submetida à idéia de que meu grupo denominacional possuía a condição de estar mais próximo de uma “fé neotestamentária” que os demais.

Todavia, há que se esquadrinhar o locus matricial da dificuldade da leitura da Bíblia. Nós o acharemos no instante da tradução dos textos bíblicos de suas línguas originais para o nosso idioma. Para muitos dos idiomas receptores, o caminho dos textos originais até eles foi bastante longo e complexo. Isso se dá no caso do nosso português. Para que os textos sagrados chegassem até sua tradução em língua portuguesa (e especificamente para as traduções utilizadas no Brasil), o caminho foi longo do ponto de visto do tempo, e complexo do ponto de vista da seleção do material a ser traduzido. Convém lembrar que os textos da Bíblia cristã foram escritos originariamente em três idiomas, sendo eles: o hebraico (maior parte do Antigo Testamento), o aramaico (algumas porções do Antigo Testamento) e o grego koiné[6] (o Novo Testamento). Cada um desses idiomas possui sua peculiaridade. Cada um deles traduz um universo lingüístico completamente diferente do nosso atual português. Tanto do ponto de vista das questões formais, isto é, das questões relativas à estrutura gramatical, quanto do ponto de vista das relações entre língua e imaginário, os idiomas bíblicos estão muito distantes da língua na qual lemos a Bíblia hoje. Todavia, não é minha intenção aqui empreender um estudo sobre essas questões, que são de responsabilidade da exegese bíblica. Quero apenas pontuar o início do problema da leitura bíblica.

De outra maneira, não se pode exigir que os atuais leitores da Bíblia sejam todos eles peritos na exegese, ou peritos nas línguas originais dos textos sagrados. Exigir isso do povo é acentuar uma injustiça pedagógica e reproduzir nas igrejas mais uma forma de exclusão num país onde boa parte da população – incluindo aí o povo das igrejas, é claro – tem uma dificuldade relativa para fazer uma leitura crítica de um texto[7]. Chamo isso de exclusão academicista, que poderia ser contada ao lado de tantas outras modalidades de exclusão que existem. É louvável a intenção de alguns movimentos atuais no seio das igrejas evangélicas para incluir as ciências teológicas – hermenêutica e exegese – no exercício da leitura popular da Bíblia. Todavia, é preciso sempre estar atento para que tal leitura não se transforme também numa leitura opressora, isto é, numa nova imposição de uma leitura elitista sobre o povo excluído desses meios de interpretação.

Para além das questões mais intrincadas da exegese e hermenêutica bíblicas – que devem ser freqüentemente examinadas pelos seus peritos -, ao povo simples das igrejas resta o seu exemplar da Bíblia (hoje diversificado nas muitas formas estéticas!), companheiro nos cultos, presente antes do sono reparador da noite, nos cultos familiares, e nas demais ocasiões da vida cotidiana. Ainda que para os peritos das ciências bíblicas isso seja por demais irritante, cabe-nos admitir que o povo das igrejas não se interessa em saber, por exemplo, das teologias distintas das supostas fontes documentais do Pentateuco. A esse povo não interessa se ali falam as vozes do Javista, do Eloísta, do Deuteronomista ou da fonte Sacerdotal. O povo quer saber do que a Bíblia pode lhe oferecer para caminhar com segurança na vida. Não estou pontificando a inutilidade da pesquisa exegética do Antigo Testamento (AT), mas descrevendo uma realidade eclesial que não pode ser refutada. Seja na leitura do AT ou na do NT (Novo Testamento), o interesse do povo está no “discernir a voz do seu Deus”. Mas é justamente nesse tocante que os peritos têm razão quando insistentemente nos lembram de um dos grandes perigos da leitura bíblica, na ânsia do discernimento da “voz de Deus”: o perigo da leitura literalista dos textos sagrados.

2.2 Caracterização do literalismo bíblico e suas conseqüências

Se uma leitura bíblica a partir das ciências teológicas não pode ser exigida do povo que não tem acesso a essas ciências, uma leitura literalista dos textos sagrados também não pode ser admitida sem críticas. Leonardo Boff demonstra, com muita razão, que o literalismo bíblico tem sua raiz no Movimento Fundamentalista, iniciado nos Estados Unidos no início do século 20, entre os teólogos protestantes da Universidade de Princeton[8]. Consciente do risco da generalização, me atrevo a dizer que esse literalismo bíblico fundamentalista é o mesmo que se encontra arraigado na maneira do protestante evangélico ler seu exemplar da Bíblia hoje em dia. Mas, afinal, o que caracteriza a leitura literalista da Bíblia? E por que a leitura literalista da Bíblia estaria tão desaconselhada assim? Primeiro, cabe elucidar com cuidado aquilo que caracteriza fundamentalmente uma leitura literalista da Bíblia.

O literalismo bíblico acontece toda vez em que são desconsiderados todos os elementos da lógica, o contexto histórico da produção dos textos, e todo valor simbólico e metafórico das passagens bíblicas. Mas, no lugar de me estender numa explicação conceitual dessa forma de leitura bíblica, quero fornecer aqui alguns exemplos simples:

a) Deus fez o mundo em seis dias (Gn 1,1-31), lido literalmente, quer dizer mesmo que Deus utilizou seis dias de 24 horas, isto é, 144 horas para criar tudo que existe;

f) Deus mandou matar (Js 7-12) quer dizer mesmo que o Pai misericordioso de Jesus Cristo (o Príncipe da Paz), que revela Sua graça a todos os povos, mandou mesmo executar algumas nações com quem Ele não simpatizava muito, não importando se as vítimas fossem crianças, adultos ou idosos;

b) O sol e a lua pararam (Js 10,12-15), numa leitura literalista, quer dizer mesmo que os referidos astros celestes, estando em movimento, fizeram uma pausa num determinado momento;

c) Jonas foi engolido pelo grande peixe (Jn 1,17) quer dizer mesmo que um sujeito histórico foi sugado ao ventre de um animal aquático e ali esteve por três dias e três noites;

d) O homem é o cabeça da mulher (Ef 5,22-33), na perspectiva literalista, inspira a insuportável idéia de que Deus deu ao homem o poder de exercer poder sobre a mulher, expressando uma hierarquia em termos de gênero;

e) Os salvos são 144.000 (Ap 7,1-8; 14,1-5), entendido literalmente, traz a patética idéia de que a capacidade do Tabernáculo Divino é inferior à capacidade do Maracanã original, onde cabiam 200.000 pessoas.

Esses exemplos parecem extremamente simplistas, mas são eles que revelam o que há de mais nocivo nesse tipo de leitura da Bíblia, tão presente até o momento em grande parte do protestantismo evangélico no Brasil. Dentre as nefastas conseqüências procedentes do literalismo bíblico, quero mencionar algumas que, a meu ver, seriam as principais:

1. Relações de opressão. A leitura literalista da Bíblia tem sido responsável até então para que relações de opressão sejam fundadas, ou pelo menos legitimadas. Deixarei de lado aqui todas as formas históricas de opressão já fundamentadas na leitura literalista da Bíblia, a exemplo da conquista das Américas[9]. No entanto, dessas relações de opressão, a mais notória de todas é a opressão a que são submetidas as mulheres. A idéia dêutero-paulina de que “o homem é o cabeça da mulher” (Ef 5,22-24), interpretada literalmente, serve para reforçar e dar legitimação religiosa a um legado sedimentado no Ocidente de que a mulher representa um ser inferior em relação ao homem. Ressalto o fato de que tal legado, quando compreendido como um legado cristão, trata-se de uma leitura desatenta do texto bíblico. Em sua explicação mítica das relações entre homens e mulheres, o texto de Gênesis é enfático ao afirmar que tal relação não é conatural a homens e mulheres, mas, antes, tem sua origem na transgressão e no pecado (veja Gn 3,16). Dito de outra maneira, preservar a noção de superioridade do homem sobre a mulher corresponde a perpetuar uma situação de pecado na qual essa superioridade foi construída. Assim sendo, têm toda razão as teólogas feministas quando procuram desconstruir tal leitura ideológica da Bíblia, tão contrária à dignidade conferida a ambos os gêneros pelo espírito evangélico e também pelo próprio Espírito de Deus.

2. Conflito negativo de mentalidades. Rudolf Bultmann tem toda razão quando acentua que os textos bíblicos nasceram sob uma mentalidade completamente distinta da atual. “Pré-científica” é como ele chamava a mentalidade do mundo da Bíblia, em oposição a nossa atual mentalidade “científica”[10]. Quando lidos literalmente, os textos bíblicos tendem a reforçar um antagonismo inevitável entre as mentalidades do período bíblico e a mentalidade atual. Um dos principais indicadores desse antagonismo se reflete na eterna querela entre fé e ciência. Tal antagonismo se constitui conseqüentemente como um terrível obstáculo ao pleno desenvolvimento humano. Exemplos práticos para essa tese são fartamente encontrados na prática pastoral. Quando a Bíblia é lida como uma receita literal para todos os problemas da existência, as pessoas facilmente negligenciam as conquistas humanas no campo da ciência e da psicologia, por exemplo. Problemas relacionados à vida psíquica (às vezes à vida psiquiátrica) são ingenuamente relacionados à explicações sobrenaturais, comuns à mentalidade do povo bíblico. Dessa maneira, muitas pessoas são privadas de uma existência mais saudável em função de uma leitura que mascara os dilemas cotidianos em razões artificiais. Outro notável agravante dessa modalidade de leitura da Bíblia está na ambígua relação entre as comunidades evangélicas e fenômenos como a homossexualidade, a bissexualidade ou a transexualidade. Tal ambigüidade procede de uma antropologia limitada, debitária do contexto bíblico, que percebe o homem como uma unidade simples e bipartida: homem-mulher, sem se dar conta da complexidade da vida psíquica e comportamental evidenciada (porém não desvendada) pela ciência contemporânea. Leituras fatalistas da Bíblia não permitem que seguimentos constitutivos da essência humana como a arte, o brinquedo, ou o prazer, por exemplo, façam parte da vida e da espiritualidade desses leitores. No mais, a leitura literalista da Bíblia confina o sujeito numa vida mesquinha, reduzida à obediência cega a um conjunto de leis, como elucidado acima. Priva-o, dessa maneira, de viver no espírito sugerido pela própria Bíblia, que é numa “vida em abundância”.

3. Senso anti-evangélico de conflito. É inegável que o espírito evangélico traz em seu bojo uma noção de conflito e oposição à situação que na Bíblia é descrita como “pecado”. Há quem entenda essa noção bíblica em termos filosóficos e a chame de “alienação”. Qualquer que seja o nome mais conveniente, trata-se da percepção de que a existência atual carece de seu verdadeiro poder ser, sendo uma existência “caída” (como diria a Bíblia) em relação àquilo que ela deveria ser. Por outro lado, é inegável que as igrejas que constituem o protestantismo evangélico brasileiro vivam em conflito umas com as outras, senão declarado, pelo menos velado[11]. E é também inegável que esses conflitos tenham como fundamento a leitura literal e exclusivista que cada uma dessas igrejas faz da Bíblia. É bom que se diga que, nesses casos, o senso de conflito é sempre anti-evangélico, está sempre em oposição clara ao espírito dos evangelhos, que se caracteriza pela paz, pela equidade, pela humildade e pela unidade (não pela uniformidade). No entanto, o senso de conflito entre as diferentes igrejas evangélicas – conquanto seja motivo de terrível escândalo para a sociedade e obstáculo à evangelização – ainda não é o que de pior produz o literalismo bíblico. Os cristãos não devem esquecer que embora os últimos acontecimentos relativos ao terrorismo tenham-se dado no âmbito de uma facção do islamismo, potencialmente o literalismo bíblico pode fundamentar comportamento semelhante em qualquer agência religiosa. Atentados terroristas, suicídios terroristas, são todos legitimados pelo sentimento de que as escrituras sagradas devem ser lidas ao pé da letra. Certamente não há comportamento mais antibíblico do que manipular ideologicamente a Bíblia em função de interesses escusos. Todas as vezes que interpretamos literalmente a Bíblia, conscientemente ou não, é isso que estamos fazendo.

Verbolatria é justamente o neologismo para descrever toda essa atitude diante da Bíblia. Um serviço cego à letra, que serve de muro e ferrolho contra a vida no Espírito que o contato saudável com a Bíblia pode mediar.

Bibliografia

BOFF, Leonardo. Fundamentalismo - A globalização e o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2002

LELOUP, Jean-Yves. Amar… apesar de tudo - Encontro com Marie de Solemne. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira, Campinas: Verus, 2002

MAGALHÃES, Antonio. Deus no espelho das palavras - Teologia e literatura em diálogo. São Paulo: Paulinas, 2000

RICOEUR, Paul. Ensaios sobre a interpretação bíblica. Tradução de José Carlos Bento, São Paulo: Novo Século, 2004

RODRIGUES, Jorge Luis. A Bíblia e os conquistadores – Aspectos do uso ideológico da Bíblia no século XVI, por ocasião da invasão da América. In: Estudos bíblicos. Petrópolis: Vozes, nº 31, 1991



[1] Bacharel e mestrando em Teologia pelo STBNe, licenciando em Psicologia pela UFAL e pastor da Igreja Batista na Forene em Maceió-AL.[2] Religiões ágrafas são aquelas que se caracterizam pela completa ausência de escritos sagrados.[3] Sobre a relação entre unidade e diversidade das igrejas, cf. o quarto capítulo desse ensaio.[4] A essa pergunta dará especial atenção o próximo tópico dessa seção.[5] Veja a esse respeito Jean-Yves LELOUP. Amar… apesar de tudo. Campinas: Verus, 2002. p. 136-148.

[6] Koiné, traduzido diretamente do grego quer dizer “comum”, aludindo à forma mais popular da língua grega da época, que deve ser contrastada com o grego clássico encontrado na composição de outras obras literárias da antiguidade grega. Em outras palavras, o grego koiné é o grego do povo, fortemente arraigo nas províncias conquistadas a partir da dominação de Alexandre, o Grande.

[7] Uma pesquisa recente revela que no estado de Alagoas (local de minha residência) 50% da população é formada por analfabetos funcionais, ou seja, 50% da população sabe apenas escrever o próprio nome, mas não tem condições de ler e interpretar um texto.

[8] Para maiores detalhes, veja Leonardo BOFF. Fundamentalismo - A globalização e o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2002, p. 12-16.

[9] A esse respeito, remeto o/a leitor/a a um interessante artigo sobre o tema. Confira Jorge Luis RODRIGUES. A Bíblia e os conquistadores – Aspectos do uso ideológico da Bíblia no século XVI, por ocasião da invasão da América. In: Estudos bíblicos. Petrópolis: Vozes, nº 31, 1991, p. 9-17.

[10] Entretanto, isso não indica que concordo com a solução indicada por Bultmann, quanto à desmitologização dos escritos bíblicos, mais especificamente dos escritos neotestamentários.

[11] Vez por outra esses conflitos são explicitamente declarados, seja na vida interna dessas igrejas, ou mesmo na mídia.

 

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