Deus acima de Deus

Publicado em 11 de dezembro de 2007 por Pr. Josias Novais

Lendo a obra “História do Pensamento Cristão” do renomado teólogo Paul Tillich me deparei com uma frase profundamente “estranha” atribuída a Dionísio Areopagita:“Eu creio em Deus acima de Deus”.

Dionísio Areopagita é o clássico místico cristão que se tornou uma das mais fascinantes figuras da igreja oriental. Exerceu grande influência também no Ocidente. Esse nome foi utilizado por um escritor que existiu por volta do ano 500 de nossa era. Segundo a tradição, esse homem teria sido o mesmo Dionísio que Conversara com Paulo. Contudo, foi apenas no século XV que se descobriu que esses livros não haviam sido escritos pelo companheiro do apóstolo. Ficou, então, estabelecido, que se tratava de um escritor que escrevera por volta dos anos 500 e que usara esse nome para emprestar autoridade aos seus livros.

Uma dentre tantas obras importantes de Dionísio é seu livro intitulado por Sobre os nomes divinos. Para Dionísio há duas maneiras de conhecer a Deus. Em primeiro lugar podemos conhecê-lo através do caminho da teologia positiva ou afirmativa, ou seja, Deus pode ser designado por todas as coisas, pois todas as coisas o indicam. Deus deve ser nomeado com todos os nomes. A outra possibilidade, é que podemos conhecer a Deus, por meio da teologia negativa, na qual ele não pode ser designado por nome algum, seja qual for o nome. Segundo Dionísio, Deus é super-essencial, logo ele paira acima dos mais altos nomes que a teologia lhe tem conferido. Portanto, para ele Deus é “escuridão indizível”. Assim sendo, Dionísio nega que Deus, em virtude de sua natureza, possa ser falado ou visto.

Consoante Tillich, a expressão de Dionísio  “escuridão indizível” referindo-se a Deus, tenha sido a fonte que ele usou inconscientemente para finalizar o seu livro “A Coragem de Ser”, sobre “DEUS ACIMA DE DEUS”, isto é, Deus se situa acima de qualquer nome especial que lhe possamos dar, mesmo que seja o nome do mais alto ser. Logo, a expressão Deus acima de Deus é uma interpretação inconsciente que Tillich faz da expressão escuridão indizível de Dionísio.

Nesta perspectiva, o teólogo brasileiro Rubem Alves em seu livro “Fomos maus alunos” afirma que: “Deus é o mistério sobre o qual nada se pode falar. Ele está além da palavra. Idolatria é pretender capturar o inominável numa gaiola de palavras para, assim, dominá-lo, torná-lo previsível”.

Leonardo Boff no seu livro “Experimentar Deus” nos diz que: “embora sem nome adequado, Deus arde em nosso coração e ilumina nossa vida. Então não precisamos mais crer em Deus. Simplesmente sabemos dele porque o experimentamos”.

Penso que o nome “Deus” que usamos para nos referir a divindade que cremos, é pura e exclusivamente conceitual. Na verdade quando falamos em Deus, objetivamos tirar o mistério do universo do anonimato, dos bastidores da história, para conferir-lhe um nome, o da nossa reverência e afeto. Mas, ainda assim, tal conceituação é em si mesma insuficiente para descrever tudo o que esse mistério é.Deste modo, Deus está acima das religiões, acima dos nomes que lhe atribuímos, pois ele mesmo transcende qualquer tentativa de objetivação.

 

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