O absurdo de crer

O exercício entusiástico da fé pode produzir nos incrédulos uma profunda e reverente admiração pelos crentes, levando os que não crêem ao despertamento e à busca das “coisas que são de cima” (Col. 3:1). Conta-se que David Hume, historiador, filosofo e cético da século XVIII, em certa ocasião foi interrompido por um amigo, numa rua de Londres, que lhe perguntou aonde ia com tanta pressa. “Vou, disse Hume, ouvir a pregação de Whitefield.” Tal notícia causou surpresa ao amigo, que perguntou de novo ao famoso cético: “Mas o senhor não crê no que Whitefield prega, não é verdade?” “Não, respondeu Hume, “porém ele crê.”Sim, pode entusiasmar, mas também pode escandalizar, quando o simples ato de crer lhes parecer “loucura” (II Cor. 2:14) e absurdo às suas mentes naturais e racionais. Se para Nietzsche (1844-1900), a confissão “credo quia absurdum est” (creio, porque é absurdo), era “a bandeira do fanatismo extremado,” para Tertuliano (155-220), apologista cristão fervoroso, representava sua fé e expressão plena de sua confiança no poder e na sabedoria de Deus.

O que a mente racional chama de absurdo tem a ver com a sua incapacidade de entender e dá respostas lógicas e experimentalmente demonstráveis aos fatos e às questões intrínsecos à vida da fé. E o que deixa de perceber é que “a fé transcende a lógica. Ela não é irracional, mas não se sujeita à mera demonstração empírica ou ao simples esquema do raciocínio lógico. O ato de fé existe como algo que se situa além da capacidade lógica de demonstração experimental” (Dr. Merval Rosa, 1983). Tertuliano cria na superioridade da fé em relação à razão, e cria que a base da fé é o milagre, ou seja, o que contraria as leis da natureza, da ciência e do racional.

Eis porque aprecio os ainda-quês da Bíblia (Sal. 23:4;27:3;46:2,3; Ecles. 8:12; Hab. 3:17 etc). Eles parecem traduzir a fé “escandalizante” e absurda, que honra, agrada e glorifica a Deus, a fé perfeita nEle (Sal. 46), cujos efeitos e operação não estão à mercê da lógica humana, da dependência de nossas instáveis emoções e circunstâncias da vida e dos momentos, mas de Deus, tão somente, e firmada na imutabilidade de Seu caráter justo e santo, e na Sua fidelidade.

Martinho Lutero (séc. XVI) fez uma profunda confissão de fé, ao afirmar: “A nossa fé não está firmada na areia movediça dos nossos sentimentos, mas na eterna, fiel e infalível Palavra de Deus”. E ele guardou esta fé até o derradeiro momento de sua vida. No leito de enfermidade, e já às portas da morte, o Dr. Jones perguntou a seus ouvidos: “Reverendo, o senhor permanece com Cristo e com as doutrinas que tem pregado? Elas resistem à agonia da morte? Lutero respondeu: “Sim, mil vezes, sim!” e, virando-se, adormeceu. Este episódio ilustra as palavras de Hannah Moore: “Nenhum homem, no seu leito de morte, jamais se arrependeu de ser cristão.”

Mas é precisamente esta disposição de crer, persistente, não obstante às circunstâncias adversas da vida, revezes, e aparente descaso e indiferença de Deus, que vai caracterizar a fé vitoriosa, que ousa confiar, acreditar no inacreditável e, em resposta, recebe o impossível.

Em uma das paredes das catacumbas de Roma, onde cristãos eram confinados por causa da fé e do testemunho do evangelho, foi achada uma inscrição com a seguinte mensagem: “Creio no sol, ainda que não brilhe; creio no amor, ainda que não o sinta; creio em Deus, ainda que não O veja e tão distante se pareça.” Só a fé é capaz de absurdos assim, só ela rompe os limites do lógico e do racional, e afirma Deus, para além de todos os obstáculos e impossibilidades.

Para escândalo e perplexidade dos que fazem da razão a única explicação possível da realidade, em desprezo da fé, os absurdos de Deus estão aí, e permeiam toda a Bíblia. Ele é o “Deus dos absurdos,” que do caos faz surgir a ordem, o equilíbrio e a vida, conforme narra o Gênesis. Que chama Abraão, tira-o do conforto de sua terra e de sua parentela e, lá vai Abraão, ” sem saber para onde ia” (Hb. 11:8). Já mais maduro em seu andar com Deus, recebe a ordem de sacrificar Isaque, filho seu amado e filho da promessa, e pode você imaginar o que havia na mente e no coração daquele amoroso pai, na medida que caminhava para o local do sacrifício? Duro, não?

Pensemos em Jó, “homem integro e reto, que temia a Deus e se desviava do mal”(1:1), entregue a Satanás, que lhe arruína e arrasa a vida, família e os bens. Milênios depois, veja este mesmo Deus tornando grávida Maria, jovem pura, integra e santa, sem ter conhecido homem algum, e isto para espanto e desconforto de José, o noivo, que “secretamente intenta deixá-la” (Mat. 1:19). Também, porventura não sabia o Senhor que as águas daquele mar da Galileia, surpreendentemente tempestuoso, não se levantariam e deixariam seus discípulos apavorados e desesperados? Mas, mesmo assim, Ele ordenou a travessia; aliás, não os deixou ir sozinhos, ordenou, e atravessou com eles (“Passemos à outra margem do lago”. Luc. 8:22b). E, em meio aos gritos de pavor e desespero daqueles homens, Ele dormia “sobre a almofada” (Mar. 4:38), aparentemente indiferente, tendo que ser despertado.

Destes, e de tantos outros “absurdos” divinos, sabemos que eles são a manifestação de Sua onisciência, sabedoria e expressão de Sua vontade santa, perfeita e agradável. Sabemos também dos abençoados desfechos deste absurdos, e de como Deus foi maravilhosamente conhecido, glorificado e exaltado: “E aqueles homens se maravilharam, dizendo: Que homem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?” (Mat. 8:27).

Deus, todavia, não conhece absurdos. O homem é que precisa obedecer e crer, ainda que seja absurdo fazê-lo, e ainda que todas as dimensões do seu ser neguem essa possibilidade, se quer, de fato, ver Suas tremendas manifestações, pois, como está escrito: “Se creres, verás a glória de Deus” (Jo. 11:40), “crê somente” (Marcos 5:36).

Olhemos para as nossas condições atuais de escândalos, descrédito nos homens e nas instituições, ousado incremento do mal, e para o recuo tímido da igreja perante os Golias da atualidade, ameaçadores e assustadores, não são elas porventura um desafio ao exercício da fé que ousa agir, oriunda de um caráter cristão santo e justo, capaz de se colocar nas mãos de Deus e, na condução de Seu Espírito, realizar prodígios no poder de Seu nome? E onde está uma fé assim? Podem os homens, nos absurdos de seus caminhos tortuosos contemplar, com entusiasmo e temor, o absurdo de uma fé que, a despeito e apesar de tudo, deposita em Deus total confiança e crer em Seu domínio absoluto sobre todas as coisas? E crer, também, que “não importando quão terrível ou incontrolável possam parecer as forças do mal na terra, elas não conseguem anular ou eclipsar o fato maior, segundo o qual, por trás do cenário, Deus está em seu trono, guardando o universo?” (George Hadd). Cremos assim?

Esta é a fé para hoje, como cremos, e ao nosso alcance, que Deus certamente aguarda a manifestação para manifestar-Se como Senhor e Deus. “Oh, Senhor, acrescenta-nos a fé.” (Luc.17:5)

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