Pensando o Natal

1.1 Natal: Deus entrou na história humana!

Basta-nos um pouco de conhecimento histórico para sabermos que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro. Nessa data comemorava-se o culto a Mithras (deus sol), ritual muito difundido nos primeiros séculos da era cristã. Com a conversão do imperador Constantino ao cristianismo, a data que comemorava o nascimento de Mithras passou a ser a festa do nascimento de Jesus.

Esta imprecisão quanto ao nascimento do Filho de Deus está presente também nos evangelhos. Não se pode determinar com precisão o lugar do nascimento de Jesus. Os evangelhos de Marcos e João não indicam nada a respeito, já os de Mateus e Lucas citam Belém, quiçá, movidos por razões teológicas (Descendência da casa de Davi e a profecia de Miquéias- 5:2), enquanto alguns pesquisadores sugerem a hipótese de ser Nazaré a sua terra natal.

Na narrativa do evangelho segundo Mateus (2:1-12), Jesus nasceu em casa e foi visitado pelos magos do oriente (v.11). Por outro lado, conforme o evangelho lucano (2:1-7), Ele nasceu numa manjedoura e foi visitado pelos pastores (Vv.7,15). Destarte, a data e o local são insignificantes. Mais importante do que tempo e lugar é a comemoração do acontecimento em si. A ênfase teológica digna de nota é que o Cristo nasce aonde às pessoas possam encontrá-lo. Deus sempre alcança o ser humano na sua realidade. A significação do nascimento de Jesus é que Deus entrou na história, atuou na história e está levando a história para um fim (Telos: finalidade).

1.2 Natal: momento de comemorar!

Comemorar é muito mais que se alegrar, embora a alegria seja a marca mais visível da comemoração. Deste modo, para entendermos a amplitude desta palavra, precisaremos reparti-la como se faz com um panetone.

A palavra comemoração é o resultado da aglutinação de três palavras, a saber: comer, memorar e ação. Quando comemoramos, comemos da memória de algo ou de alguém. Nesta perspectiva, o natal é um momento de comermos da memória do Cristo. De nos lembrarmos da “invasão” de Deus em nossa história.

Quem come da memória do Cristo se alimenta de vida, de esperança, de graça, de fraternidade, de solidariedade, de ternura, numa palavra: amor! Alimentados pela vida de Cristo, somos desafiados a alimentar os famintos do mundo, nos identificando com eles nas suas dores e lástimas. Quem se alimenta da memória do Cristo, não fica inerte, pelo contrário, é impelido pelo Espírito Santo aos becos, ruas, favelas e guetos da cidade para partilhar pão e vida, Jesus: Pão da vida!

Como igreja, temos inúmeros motivos para comemorar. Comemorar as vitórias, as lutas, os desafios, as realizações, os fracassos, tudo, naturalmente, faz parte da dinâmica complexa da vida. Entretanto, nenhuma dessas razões se sobrepõe ao projeto de Deus em ter armado a sua tenda entre nós. Jesus é Deus conosco, é Deus com a gente, com a cara da gente!

Que neste natal, tragamos à memória aquilo que nos dá esperança (Lamentações 3:21). Que a nossa memória seja alimentada com a do Cristo: corpo entregue, sangue derramado; vida que se oferece ao outro em forma de serviço impulsionado pelo amor.

1.3 Queremos um único natal, igual para todos! (Pr. Paulo Nascimento)

É Natal. E aí? Se você pensar bem, não é correto dizer “é Natal!”, como se só houvesse apenas um.

O que há são muitos Natais: um é o Natal dos ricos, cheio de fartura, de presentes, do peru suculento, da árvore bonita e bem enfeitada. Outro é o Natal dos pobres, sem festa, sem presentes, sem peru e sem árvores. Um é o Natal dos empresários que faturam amplamente nessa época. Outro é o Natal do desempregado, que chora a vergonha de não ter o que dar aos seus filhos. E aí? O que fazer para ter um único Natal, igual para todos?

Primeiro, que todos voltem a ser solidários com o próximo, porque Deus mostrou sua radical solidariedade deixando sua glória e armando sua tenda entre nós. Segundo, que todos se lembrem de ser mais humildes, pois o Filho de Deus nasceu numa estrebaria, lugar de animais. Terceiro, que todos se lembrem de ser mais humanos, porque Deus abdicou de sua condição transcendente e assumiu a completa humanidade. Enfim, que todos se abram humildemente para acolher a Deus em seu coração, pois Jesus Cristo procura outros locais humildes para nascer.

Queremos um único Natal, onde todos ouçam os conselhos do Maravilhoso Conselheiro, fortaleçam-se na força do Deus Forte, confiem no Pai da Eternidade, e experimentem a paz do Príncipe da Paz.

1.4 Revendo Atitudes (Pr. Ágabo Borges)

O evangelho de Mateus nos destaca algumas atitudes diante do nascimento de Jesus. Quero chamar a atenção para três.

Primeiramente, a atitude de Herodes, que se mostra interessado no relato do acontecimento, mas se sente ameaçado e busca destruir a presença do Cristo na história. Para Herodes, a compreensão do Cristo era como rei, limitava-O a uma relação de poder terreno e confundia poder com autoridade, entendendo-os como a capacidade de mandar, de dar ordens. Nesse sentido, o Cristo era uma ameaça para ele, por isso deveria ser aniquilado, destruído.

Uma segunda atitude que gostaria de destacar, é a dos principais dos sacerdotes e dos escribas. Esses têm uma preocupação tão grande com as coisas teoricamente certas, que a vida, os acontecimentos não têm valor. Quando questionados sobre a vinda do Cristo, citam os textos, mostram seu conhecimento teórico, mas não se importam em saber o porquê das perguntas, não vinculam as escrituras com a vida. Para esses, o nascimento do Messias deveria ser conhecido apenas intelectualmente. Essa postura se mantém em muitos momentos nos confrontos com Jesus durante seu ministério, em toda a narrativa do evangelho. Mais importante do que a vida é saber sobre ela, por isso deixam de viver.

Uma terceira atitude, e a que mais me causa espanto e incômodo, é a dos Magos do Oriente. Eles se alegram grandemente quando chegam ao lugar onde estava o menino, (Mt. 2,10) antes mesmo de vê-lo. O lugar da presença já é motivo de grande alegria. Quando vêm o menino, ao entrarem na casa (não na estrebaria Mt. 2,11 ), se prostram e O adoram. Por fim, dão presentes, dignos de rei, extremamente valiosos. Uma atitude que se desenvolve de maneira crescente: alegria, adoração e dádiva. Como uma atitude tão bela pode me causar espanto e incômodo? Tenho algumas razões pra isso:

1. Eles são de outras terras, de outra religião, talvez não conhecessem as Escrituras. Os outros estão perto e conhecem as Escrituras. 2. Eles se deslocam em uma caminhada incerta, sem muitas informações, guiados por um sinal divino, não desistem e são sensíveis à direção de Deus.3. Apesar de tudo isso, eles reconhecem a Jesus como o Cristo de Deus. 4. Eles se desprendem, sendo capazes de ofertar ao Cristo, recém-nascido, uma pequena criança sem poder, e dependente. Quanta sensibilidade! Será que somos capazes disso? Nós, que conhecemos as Escrituras, estamos mais perto dos escribas ou, talvez, de Herodes?

Desejo a todos uma aproximação do Cristo no modelo dos magos. Alegria, adoração e dádiva, doação pelo reconhecimento do Deus que se envolve conosco na história, participando da realidade e da fragilidade do ser humano.

FELIZ NATAL!!!!!!!!!!!

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>