Conhecendo ao que tudo conhece
Não há nada mais desejável e ao mesmo tempo mais rejeitado do que se relacionar com alguém que nos conhece totalmente. Ter um relacionamento pessoal com Deus é se relacionar com alguém para quem não há segredos. Não há nada que Ele não saiba, não há gestos, palavras, sentimentos, desejos que Deus não conheça completamente.Às vezes fico me perguntando como é que se dá um relacionamento com alguém para quem eu não tenha nenhum segredo. Com quem eu não precise vestir minhas fantasias, nem tentar impressionar com minhas conquistas. Onde não tenha que me afirmar com minhas realizações, alguém que não é seduzido com minhas conversas vazias…
Geralmente nossos relacionamentos são com pessoas que nos conhecem, não pelo que somos e sim pelo que fazemos; que nos amam não necessariamente porque nos conhecem, mas porque nos julgam úteis; de quem procuramos esconder aquilo que sabemos e fazemos para não prejudicar a imagem que queremos que tenham de nós.
O Salmo 139, fala-nos da descoberta de um Deus para quem não há segredos, que nos conhece e ama exatamente como somos. O salmista diz que o Senhor nos sonda e nos conhece. No original hebraico, estes vocábulos indicam às “operações de minério”. Deus é aquele que conhece as minhas perolas e as minhas pedras. Meus diamantes e meus tijolos.
À guisa do salmista, para conhecer o Deus que tudo conhece é necessário:
1- Buscar Nele a verdadeira dimensão do meu ser
1.1 O salmista diz: “Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim, tão alto que não posso atingir”. A nossa finitude leva-nos a consciência de quem somos. Somente Deus tem a dimensão exata do meu ser; Só ele pode nos firmar dando-nos a consciência exata da complexidade que somos. Só Deus me conhece na totalidade.
1.2 O Salmista confessa a sua incapacidade de abstrair o mistério, de entendê-lo. Deus está no campo do mistério; E o mistério não é para ser compreendido, mas crido.
1.3 Certo autor brasileiro afirmou: “Não adianta pedir explicações sobre Deus; Você pode escutar palavras muito bonitas, mas no fundo são palavras vazias… Ninguém vai conseguir provar que Deus existe ou não existe. Certas coisas na vida foram feitas para serem experienciadas, nunca explicadas. O amor é uma destas coisas; Deus que é a essência do amor, também o é. Deus nunca vai entrar por sua cabeça; a porta que ele usa é o seu coração”.
1.4 O poeta Walter Eccles, admitindo a finitude humana declarou:
Não compreendendo,
Avançamos alquebrados,
Nossa vereda vai-se alargando,
Conforme avançamos nos anos.
Maravilhamo-nos e admiramo-nos
Porque a vida é vida
E então caímos no sono.
Sem nada compreendermos.
1.5 Parafraseando Agostinho, um dos pais da igreja Cristã: “O vazio coração do homem é do tamanho de Deus. Só Ele pode preencher (…)” E ora: “Senhor, tu nos incita ao teu louvor, nele encontramos deleite, porque nos fizeste para ti mesmo, e inquieto bate o nosso coração finito, até que possa repousar em tua infinitude”.
2- Devo Reconhecer a infinitude do seu SER
Para que tenhamos ciência de Deus, não é necessário ser formado em teologia. Ele não está preso aos compêndios teológicos. Segundo o teólogo Claudio Carvalhaes, “Deus é a interrupção de nossas palavras. Estamos sempre diante de uma aporia (lugar de indeterminação), um lugar onde o falar de Deus torna-se impossível e nada podemos fazer, nem falar, nem ficar em silêncio; um lugar estranho onde o Espírito revolve para além de nossa capacidade de entendimento e, muito menos, de definição”.
Para que tenhamos ciência de Deus, é necessário, na perspectiva do salmista, conhecer seus atributos básicos. Saber quem Ele é, qual a sua natureza e seu caráter. Sem isso será impossível desenvolver outras relações com Ele.2.1 Ele é onisciente- Ele nos avalia incessantemente. Ele diz que nos sonda. Deus está sempre desfrutando, mergulhando, se misturando com a minha vida, dando a minha cura, avaliando a minha alma, a minha mente, minhas motivações, meus pensamentos.
Ele conhece a minha existência diária e minhas expressões corriqueiras. Conhece os detalhes, as minúcias, as insignificâncias da minha vida. Ele penetra o impenetrável, sonda o insondável, decifra o indecifrável. Ele está para além da linguagem (ainda palavra não me chegou à boca e tu conheces toda). Ele sabe onde moro, o que faço, a quem amo, quem odeio, meus sonhos, meus projetos, minhas vitórias, meus fracassos, meus medos… Você não sabe muitas coisas da sua vida, mas Ele sabe tudo.
Nos EUA todas as casas têm porões (BEIZEMENT). Lá as pessoas guardam móveis semi-novos, suas quinquilharias, seus badulaques; É uma parte da casa que não é apresentada aos visitantes. Entretanto, não existe espaço na casa da minha vida que Deus não tenha visitando! Ele conhece o meu BEIZEMENT! O Senhor conhece os porões da minha alma, meus quartos escuros, a bagunça da minha vida.
2.2 Ele é onipresente- Ainda que eu tente me esconder Dele Concluirei que é impossível. Ele faz parte de mim! O universo está cheio da presença Dele. Como disse o salmista: “Os Céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos”.Todas as coisas refletem a sua beleza, a sua glória, o seu encanto, a sua santidade. Ele permeia todas as coisas por que delas é criador e Senhor!
Adão tentou se esconder Do Senhor. Jonas tentou fugir. Tentativas frustradas! Conforme a narrativa do Gênesis, após o pecado de Adão e Eva, Deus faz uma pergunta: “Adão, onde estás?”. A pergunta não é geográfica, mas existencial. Adão se perdeu por conta do pecado. Estava perdido dentro de si mesmo, mas foi achado pelo Senhor onipresente.
2.3 Ele é onipotente- É interessante destacar que o salmista não associa o poder de Deus aos palácios de sua época, aos muros de sua nação, a uma montanha… O Salmista atrela o poder de Deus à própria realidade da existência humana. O salmista fica estupefato ante o poder de Deus, que tece a complexidade da vida interior.”Ele nos formou de modo terrível e maravilhoso”. O seu poder é capaz de dar forma a algo informe, vida a algo morto, sentido a algo sem sentido. EU SOU O AUT DOOR DO PODER DE DEUS!
3- Devo compreender que só Ele tem o poder de mudar a minha vida.
Após o reconhecimento da sua finitude e da infinitude de Deus, o salmista chega a uma conclusão: Somente o Senhor, poderia transformar radicalmente a sua vida. O salmista expõe a sua vida à onisciência de Deus.
Nesta perspectiva, vale a pena citar uma oração de santo Anselmo: ” Ó Senhor, nosso Deus, dá-nos a graça de te desejar com todo o nosso coração. E que o nosso desejo nos leve a buscar-te e a encontrar-te. E que encontrando-te, possamos amar-te. E que amando-te, possamos odiar os pecados de que nos redimiste”.
O salmista não queria ser como as pessoas que ele descreve VV. 19 -22; que embora saibam da sua finitude e fragilidade jamais se rendem ao infinito. Embora reconheçam quem Deus é jamais se comprometem com Ele. O caminho mau ao qual o salmista se refere, é um caminho de dor, por ser inerentemente errado. Entretanto, Ele prefere o caminho eterno!
O salmista deseja ser um adorador. Posto que, quem compreende quem Deus é, é induzido a adorá-lo. Essa compreensão de Deus me conduz a uma santidade de vida. Eu passo a me perceber, a perceber a história e toda a criação como manifestação da santidade de Deus.
Que neste dia façamos a oração do salmista “sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece meus pensamentos, vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno”.
À Deus, por Cristo, Toda glória e Louvor!