Tristeza que edifica
Tudo que provém de Deus é tão benéfico à nossa vida que até a tristeza segundo Ele nos é saudável e necessária. Pelo menos é o que foi dito pelo apóstolo Paulo na segunda carta dirigida a igreja de Corinto. Diz ele: “Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte” (2 Co. 7:10).
A lembrança deste texto me ocorreu quando lia o segundo capítulo do livro de Neemias para meditação do culto de terça (16/02/10). Neemias estava muito triste por causa da situação caótica de Jerusalém e do seu povo. Neemias (copeiro), que sempre se apresentava ao Rei Artaxerxes com a alegria no rosto, não pôde disfarçar a tristeza que tomava conta do seu coração.
Depois desta leitura fiquei a pensar num tipo de tristeza que faz bem a nossa alma, que nos devolve a sobriedade, que não permite que fiquemos alienados ante ao caos que está a nossa volta. Tristeza semelhante a de Neemias que se instala em nós como fruto da compaixão, capacidade de sentir a dor do outro como se fosse nossa. Tristeza divina na perspectiva de Paulo que produz arrependimento, isto é, expansão da consciência, coragem para refazer a vida e repensar valores.
Prosseguindo na leitura do capítulo dois de Neemias cheguei ao versículo dez que registra a revolta e o descontentamento (tristeza diabólica) de Tobias e Sambalate por causa dos planos de Neemias que objetivavam a reconstrução das muralhas de Jerusalém, bem como a reconstrução da vida do povo de Israel. A tristeza dos opositores de Neemias é o ápice da maldade e perversidade humana, posto que pior do que não ter compaixão de ninguém, é se entristecer com a compaixão dos outros.
Assim como o rei viu a tristeza do rosto de Neemias por causa do seu povo, que se veja no nosso rosto a tristeza pela destruição do planeta; que se veja no nosso rosto a tristeza pela vida humana que tornou-se descartável; que se veja no nosso rosto a tristeza pelos jovens destruídos pelo crack; que se veja no nosso rosto a tristeza pela espiritualidade consumista e individualista que ganha notoriedade em nossas igrejas… Que se veja tristeza em nós, posto que a tristeza como sinônimo de lucidez e como convite ao arrependimento faz um bem imensurável à nossa vida!