A falência das nossas babéis
Babel não era apenas uma torre, era um projeto de sociedade com cultura, economia, religião e ideologia bem definidas. A narrativa bíblica é, portanto, um telescópio através do qual podemos olhar e interpretar as sociedades de todos os tempos e culturas. A partir do capítulo 11:1-9 de Gênesis, gostaria de refletir sobre a falência de duas babéis que construímos em solo ocidental.
A primeira babel tem fundamentos religiosos. O cristianismo tem seus últimos dias de vida contados. Não confunda cristianismo enquanto religião institucionalizada, com Reino de Deus ou com a igreja enquanto sinal deste Reino e corpo de Cristo na história. O cristianismo assinou seu atestado de óbito quando deixou de ser conhecido como povo do caminho e passou a ser religião oficial de um império. A fé tornou-se instrumento de manipulação de interesses econômicos, políticos, territoriais. Trocaram a constância da fé em Cristo pelas inconstâncias políticas de Constantino. Preferiram a glória humana em detrimento da divina. Os edificadores da torre religiosa chamada cristianismo embora falem de Deus o negam em nome da manutenção dessa estrutura. Babéis religiosas por mais fortes que parecem ser, também estão condenadas a ruínas!
A segunda babel tem fundamentos sócio-econômicos. O capitalismo neoliberal tem se revelado como uma forma inviável de economia, posto que a sobrevivência dele implica necessariamente na morte de muitas pessoas e do planeta em que vivemos. A fraternidade ecumênica tem encabeçado uma campanha chamada “economia e vida”. Um protesto contra esse modelo de economia centrado no lucro, na ganância e na destruição sem precedentes de todas as formas de vida existentes em nosso planeta. Uma economia que respeite a vida em todas as suas dimensões e que favoreça a sustentabilidade do planeta terra constitui-se uma das necessidades mais importantes do nosso tempo.
Em babel, o desejo era se igualar a Deus, chegar aos céus. Pessoas e estruturas tornam-se diabólicas quando desejam ser divinas. Em babel, a proposta é de uniformização, isto é, uma só língua, uma só cultura. Homogeneidade cultural facilita o domínio sobre aqueles a quem se pretende oprimir. Contudo, a babel divinizada e uniformizadora não resistiu à intervenção divina. Nenhuma babel ficará de pé diante d’Aquele que conserta o mundo através do poder do seu amor!