A Ética do Temor a Deus
Quando ouvimos a expressão ‘temor do Senhor’ pensamos imediatamente em medo de Deus. Essa é uma compreensão equivocada. Primeiro, porque Deus é amor e este amor lança fora todo medo. Segundo, porque se desenvolvemos uma relação de medo com Deus nos tornaremos, inevitavelmente, cínicos e dispostos a qualquer tipo de barganha.
Temer a Deus significa reverenciá-lo por causa de quem Ele é. Temor é um estado da alma diante d’Aquele cujos céus não podem conter. Temor é um saudável assombro diante desse mistério que habita em tudo e em todos, mas que ao mesmo tempo nos ultrapassa.
Comecei a pensar nessa questão enquanto lia o capítulo 5 do livro de Neemias. O texto em destaque narra as injustiças que estavam sendo cometidas enquanto o povo reconstruía as muralhas de Jerusalém. Algumas pessoas estavam se aproveitando do momento caótico para lucrar. Desta forma, famílias estavam contraindo dividas, hipotecando seus bens e até filhos e filhas estavam sendo vendidos para quitação dos débitos com os credores. Neemias incisivamente discorda dessa situação. Para ele, o povo que fora escravo não deve escravizar. O povo de Israel não poderia cometer o mesmo pecado, inclusive consigo mesmo. O que me chama a atenção, por sua vez, é o discernimento de Neemias. Atinemos para suas palavras: “… até os moços dominavam sobre o povo, porém eu assim não fiz, por causa do temor do Senhor” (v.15). Por reverenciar o Deus libertador, Neemias percebe-se desautorizado a oprimir seus conterrâneos. Quem teme a Deus não oprime o seu irmão!
Assim sendo, quando montamos uma armadilha, quando levantamos falsas acusações, quando ferimos o outro com palavras e atitudes, revelamos a nossa falta de temor a Deus. Quando tememos a Deus, porém, brota em nosso coração um profundo respeito pela vida, um denso compromisso com a justiça e um amor sagrado pelo outro, imagem e semelhando do Criador.