Família: não desista desse projeto II
Descobrindo A GRAÇA nos relacionamentos¹
Uma vez que o casamento é a união de duas pessoas inerentemente “destituídas da glória de Deus”, a relação conjugal pode ser o contexto de conflitos graves entre os cônjuges, que acabam sendo transmitidos para o restante da família. Mas não se trata de um caso perdido. Pelo contrário, a graça é o recurso de socorro para a manutenção da solidez na estrutura desse relacionamento. Há três princípios fundamentais na aplicação da graça de Deus para o êxito de um casamento.
Em primeiro lugar está o princípio do desligamento emocional. Para um bom relacionamento conjugal, é importante para cada pessoa que forma o casal ter clara definição quanto ao que é seu e o que é do outro.
Grandes dificuldades emocionais acontecem quando um dos indivíduos da relação perde a identidade pessoal no outro. A Bíblia indica que o dom da graça é individual e que cada um recebe um novo nome, torna-se nova criatura. Nenhuma pessoa é igual a outra, e nisto está a preciosidade de cada vida. A redenção em Cristo resgata esta individualidade (não é individualismo). Assim, a graça de Deus atua no oferecimento da individualidade de cada pessoa atingida por ela.
O segundo princípio é que, embora na relação conjugal possamos preencher algumas carências afetivas originadas na infância, não podemos sustentar uma dependência infantil em relação ao cônjuge. O sentimento de pertencimento, necessário desde cedo, e que, muitas vezes, não é atendido, pode ser preenchido no casamento. Mas, ao mesmo tempo, os cônjuges devem ser adultos plenos, ou seja, precisam ter a capacidade de auto-suprimento das necessidades emocionais.
A relação entre Jesus e o Pai foi assim. Dependia em tudo de Deus, mas tinha uma obra que só ele poderia realizar. Esta dinâmica paradoxal entre pertencimento e individuação tem seu ápice no Calvário, quando Jesus exclama: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”. Jesus clama a Deus, a quem pertence, mas lamenta profundamente ser abandonado, o sentimento típico de todo processo emocional de individuação.
O terceiro princípio refere-se ao equilíbrio resultante do sentimento de amor-próprio. A relação ideal é a que oferece aos parceiros um equilíbrio de igualdade de valor. A graça de Deus oferece tal equilíbrio. (Leiam Gálatas 3:26-29)
O casal e a família são os contextos nos quais a graça de Deus pode ser experimentada em toda a plenitude. Os conflitos conjugais e familiares podem ser redefinidos como um pedido de todos para todos de atendimento de carências afetivas profundas. Como a carência básica é a da graça de Deus, a espiritualidade é que a atenderá.
¹(Reflexão extraída do capítulo IX “A espiritualidade e a família” escrito pelo Pr. Carlos Roberto Barcelos. O referido capítulo encontra-se no livro “O melhor da Espiritualidade Brasileira” cujo organizador é o pastor e músico Nelson Bomilcar.)