Cristo, paz para as cidades
As cidades e a Missão da Igreja
Recentemente foi exibido pela rede globo (Fantástico) um documentário sobre “As Mega-Cidades”. Dentre as cidades apresentadas, minha atenção foi fisgada por Mumbai, Índia (19 milhões de habitantes), e particularmente, pela entrevista concedida por um escritor nativo (Suketo Mehta) que tem se debruçado em reflexão sobre os limites da experiência urbana. Em concordância com o escritor francês, Vitor Hugo, Ele afirma que as grandes cidades são esquizofrênicas. E no caso específico de Mumbai, essa síndrome de múltipla personalidade já começa pelo nome, posto que seu antigo nome era Bombaim. Outro indicador dessa patologia urbana, é que em Mumbai existe uma das maiores favelas da Ásia (Dharavi) com 1 milhão e 400 mil pessoas, mas também existe a residência particular mais cara do mundo, avaliada em 4 bilhões de dólares. Assim sendo, as cidades, com suas contradições e belezas, têm se tornado o símbolo do desafio que a evangelização e o discipulado impõem à igreja contemporânea.
O olhar da igreja cristã para as cidades foi fortemente influenciado pela obra clássica de Santo Agostinho, “A cidade de Deus”. A referida obra é considerada o primeiro livro de filosofia da história que conhecemos. Nele, o autor, tenta explicar a história humana através da metáfora de duas cidades. A totalidade da história seria o resultado da tensão entre a cidade de Deus e a cidade dos homens. A cidade que prevalece, por sua vez, determina os rumos da história.
Do chão dessa leitura da história brotou um modelo de Igreja distante da proposta de Jesus, conforme o evangelho. Primeiro, porque construiu uma pirâmide hierárquica, que havia sido cancelada no lava-pés (João 13:13-15). Ao invés de serva da cidade, em particular e da vida, em geral a igreja se colocou como senhora, régia. Em segundo lugar, porque cavou um fosso que já havia sido tampado e eliminado na encarnação. Em Jesus, vemos Deus e o ser humano numa proposta de reconciliação (João 1:14), mas a igreja preferiu a dicotomia entre o céu e a terra, entre Deus e o homem.
Por conseguinte, em Ezequiel 38, o profeta da esperança faz uma severa crítica à cidade de Jerusalém que havia renunciado a missão que recebeu de Deus tornando-se uma cidade imprestável, um espaço de derramamento de sangue, especialmente de inocentes. Entretanto, o último versículo do capítulo 48 nos diz: “e o nome da cidade será: o Senhor está ali”. O novo nome apontava para o início de uma nova cidade (utopia profética). Apesar das contradições, desigualdades e injustiças das nossas cidades, é possível visualizar a presença de Deus na alegria, na comunhão, na esperança, na solidariedade que acontece em seus becos, favelas, guetos, praças e vielas.