Dilúvio e Política
As enchentes em Alagoas/Pernambuco e as eleições
A narrativa do dilúvio que está em nossa Bíblia teve como fonte originária uma narrativa mais antiga sobre o mesmo evento, a saber: a mesopotâmica. Vale ressaltar, porém, que a narrativa tal qual conhecemos é um contra-conto produzido pelos exilados palestinos por volta do VI século a.C em território babilônico. É um contra-conto porque foi gestado pelo povo simples contrastando com o relato mesopotâmico produzido pela elite dominante e usado pela elite babilônica, em especial pelo imperador, para dominar e violentar os escravos do seu sistema opressor e espoliador. Por outro lado, a história do dilúvio não é produto palestinense, pois a destruição com água não faz parte da cultura da Palestina (Cf. Gn.19). Desse modo, os exilados palestinenses apropriaram-se de elementos da narrativa do dilúvio mesopotâmico, recontando-a, a fim de contrapor a dominação opressora dos babilônicos.
Consoante a cosmovisão mesopotâmica, abaixo da terra há água, de sorte que esta flutua sobre abismos de mares. O império opressor se autodenominava como o sustentador do firmamento. O requisito para tal sustentação era cultuar o imperador, pois só assim o perigo do dilúvio estaria afastado. Assim sendo, a narrativa mitológica era usada para fins de dominação política e religiosa.
O dilúvio concreto em Alagoas e Pernambuco apesar dos seus óbvios distanciamentos possui algumas aproximações da narrativa mitológica do dilúvio. Fazemos aqui um recorte para enfatizar sumariadamente o discurso político-ideológico construído sobre os escombros das tragédias. Para o Pr. Wellington Santos (Igreja Batista do Pinheiro-AL), a tragédia em seu estado “não é natural, mas política”. Nesta perspectiva, o Pr. Paulo Nascimento (Igreja Batista Forene-AL) que visitou algumas cidades com o Pr. Wellington assinalou em seu blog: “E o nojo nos invadia só de pensar que provavelmente, nesse ano eleitoral, as enchentes vieram preparar um terreno hiper-fértil para candidatos que utilizarão sem dó as necessidades da população para comprar votos”.
Destarte, em concordância com Paulo e Wellington, minhas entranhas reviram ao também pensar na possibilidade de que os políticos utilizarão inescrupulosamente este incidente para os propósitos político-eleitoreiros mais sujos possíveis. O imperador babilônico utilizava o mito diluviano como ferramenta ideológica para manter o controle sobre as vítimas da sua opressão. A ameaça da destruição pelas águas (violência simbólica) era, por assim dizer, pequena, diante da prática cotidiana da violência real. Os imperadores da política nacional, em perversidade compatível ou maior, utilizam a desgraça que sob algum aspecto provocam, para continuar dominando o país e as mentes. A desgraça do povo é perversamente utilizada como outdoor das suas campanhas. Nossa esperança, porém, é que o encantamento seja quebrado e que o nosso povo escreva, apesar da dor e das perdas, uma nova narrativa da política brasileira.