Violência e Mulher
Defesas incríveis no campo versus ataques violentos na vida
O goleiro do time da maior torcida do país, ao que tudo indica, cometeu a pior de todas as jogadas de sua vida. No futebol, Bruno sempre teve a árdua função de defender o gol, e o fazia com muita competência, mas, fora dos gramados, o camisa número 1 do Flamengo atacou ferozmente a vida da sua ex-namorada, autorizando e/ou consentindo com a sua morte. Bruno já havia dado pistas da sua personalidade violenta quando se reportou a um ato de agressão de seu ex-colega de clube (Adriano), dizendo: “quem nunca ‘entrou na mão’ com sua mulher que atire a primeira pedra”. A frieza de seus comentários e comportamentos, inclusive, preocupando-se com a impossibilidade de sua participação na copa de 2014, seria um “prato cheio” para uma análise psicanalítica da sua personalidade. Nesta pastoral, porém, quero me ater ligeiramente às possíveis causas da violência contra a mulher e apontar a graça de Deus como caminho para a restauração e superação da opressão nas relações humanas.
O caso Eliza Samudio chama a atenção por causa da crueldade do crime, mas, também, por causa da fama de quem ordenou o assassinato. Entretanto, Bruno é, por assim dizer, um protótipo de tantas outras pessoas que cometem diariamente violência contra mulheres, cujas histórias são olvidadas por ene motivos.
A questão da violência contra a mulher é patrocinada em primeira instância por causa das bases machistas/patriarcais sobre as quais o mundo ocidental se assenta. Nesta perspectiva, a teóloga feminista Ivone Gebara diz: “Dentro da análise do gênero numa visão ocidental, a figura masculina representada pelo Pai se torna o princípio, a “arché” da organização e da compreensão do mundo”. Na senda dessa visão a tradição cristã no que tange a questão do mal e no seu esforço para compreendê-lo, produziu uma teologia metafísica caracterizada por um dualismo hierárquico e masculino. Assim sendo, o mal relacionado ao homem é adquirido pela sua liberdade, mas quando se trata da mulher este mal se refere ao seu próprio ser, como elemento intrínseco da sua própria natureza.
Por conseguinte, o apóstolo Paulo na sua carta aos gálatas nos apresenta a possibilidade de superação das barreiras étnicas, hierárquicas, biológicas (também da construção social de gênero) através do discernimento da Graça de Deus. Disse ele: “Todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Desta forma não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho nem fêmea, pois todos vós sois um em Cristo (3: 26-28). Apesar das construções desiguais e opressoras que fizemos ao longo da história, a Graça de Deus alimenta as nossas utopias e a nossa esperança de ver a totalidade das relações humanas restauradas e resignificadas.