A travessia

De thanatos (morte) para zôè (vida)

Consoante F. W. Nietzsche, em seu livro Assim Falou Zaratustra, “o que é de grande valor no homem é ser ele uma ponte e não um fim. O que se pode amar no homem é ele ser uma passagem, um ocaso”. Por sermos seres inacabados estamos o tempo inteiro fazendo travessias. A mais significativa de todas elas foi discernida pelo apóstolo João. Disse ele: “Quem ama já passou da morte para a vida…” (I Jo. 3:14).

Quando olhamos para a vida de João, conforme as narrativas dos evangelhos sinóticos, nos deparamos com alguém que percorreu um longo caminho para chegar ao discernimento exposto nas palavras supracitadas. João teve que enfrentar os monstros que habitavam em seu interior: preconceito, intolerância e ambição pelo poder. Tais monstros são as forças da morte que criam obstáculos para que não façamos a passagem para a vida.

Em Lucas 9:49 aparece um João preconceituoso. João proibiu um homem de expulsar demônios em nome de Jesus, só porque o mesmo não pertencia ao grupo “oficial” dos discípulos. Jesus o repreendeu dizendo: “Não o impeça. Quem não é contra nós, é por nós” (v.50).

Em Lucas 9:51-56 aparece um João intolerante.  João sugere que Jesus autorize que desça fogo dos céus para dizimar todas as pessoas de uma cidade samaritana que não quiseram hospedar o mestre. Jesus retrucou: “O Filho do homem não veio para destruir a vida das pessoas, mas para salvá-las” (v.56).

Em Mateus 20:20-28 aparece um João ambicioso pelo poder. A mãe de João e Tiago acompanhada por seus filhos pede a Jesus um lugar especial para eles em seu reino: que um se assente à sua direita e o outro à esquerda. Jesus os chama a parte e diz: “Nas nações as pessoas importantes mandam nas outras. Entre vós não será assim. Quem quiser ser importante seja o servo. O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir” (Vv. 25-28).

Por conseguinte, fica claro que as respostas de Jesus ajudaram João a fazer a passagem da morte para a vida, isto é, do preconceito para o acolhimento, da intolerância para a paz, da ambição pelo poder para o serviço. O amor que ajudou João é o mesmo que está à nossa disposição nessa decisiva travessia.

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