Palavra e Autoridade

Publicado em 1 de setembro de 2010 por Pr. Josias Novais

“E maravilharam-se da sua doutrina, porque os ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas” (Mc. 1:22). Consoante o referido versículo, a AUTORIDADE era o elemento que diferenciava o ensinamento de Jesus do discurso religioso dos escribas. Um princípio nos conduz ao discernimento desta questão: não podemos dissociar o conteúdo da pessoa que o comunica. Logo, quem é Jesus? Quem são os escribas?

Os escribas eram mestres da Torah, especialistas da lei judaica. Seus discursos estavam sempre apoiados na autoridade da tradição rabínica.  Usavam roupas especiais, formavam sua escola, tinham discípulos que os serviam como criados, ocupavam os lugares de honra nas funções religiosas e banquetes e eram saudados com grande respeito pelas ruas. No entanto, para eles, o culto a Deus autorizava o esquecimento das obrigações mais sagradas com o próximo. Concebiam a relação com Deus em termos de culpa e/ou mérito, ou seja, Deus é o grande juiz que premia ou castiga as pessoas de acordo com a fidelidade ou infidelidade as suas leis.

Por outro lado, se quisermos saber quem é Jesus e discernir porque o seu “discurso de autoridade” causava admiração no povo, basta que olhemos para o restante da narrativa da qual o versículo supracitado faz parte.  O texto (Mc. 1:21-28) localiza Jesus em Carfanaum, num dia de sábado, ensinando na sinagoga e libertando um homem que estava possuído por um espírito imundo. O “discurso de autoridade” de Jesus visa a libertação de tudo aquilo que aliena, desagrega e destrói a vida humana. O discurso de Jesus é a sua ação em favor da vida. A sua autoridade era o seu jeito livre e libertador de ser Deus. O seu ensinamento era uma comunicação que transbordava da abundância do coração. Era um testemunho do que ele mesmo vivia.

A autoridade dos escribas era imposta pela titulação (mestres da lei). Eram “respeitados” pela indumentária (traje especial) que os diferenciava dos “mortais iletrados”. Assentavam-se nos lugares de prestígio dos eventos religiosos e sociais.  No evangelho de Marcos, o “título” de Jesus é: Filho de Deus. A sua postura de vida confirmava tal “titulação” como verdadeira. Não vestia roupa especial, posto que sua missão era “costurar a vida” das pessoas com o tecido novo do evangelho. Ensinou que no Reino de Deus o que se considera o primeiro é o último e vice-versa, que é melhor servir que ser servido. Portanto, uma coisa é TER autoridade, outra coisa é SER AUTORIDADE.

Meus amados JOVENS, na perspectiva desta reflexão, apresento-lhes o desafio de uma vida radicalmente comprometida com os valores do Evangelho de Jesus, que se configure numa autoridade mais vivencial, menos retórica. Lembremo-nos: “O discurso convence, mas é o exemplo que arrasta”.


Mais que palavras

Publicado em 23 de agosto de 2010 por Juliano de Almeida

Vivemos numa sociedade de discursos. São discursos políticos, discursos religiosos etc. Vários estudiosos têm se debruçado sobre esse tema, que se tornou objeto de investigação de uma disciplina chamada análise do discurso. A proposta de um novo objeto chamado “discurso” surgiu com Michel Pêcheux na França, em sua tese “Analyse Automatique du Discours” em 1969.

Esta breve contextualização a título de introdução, tem como objetivo chamar a atenção para a palavra “discurso” que se encontra imbricada no tema escolhido pelos jovens de  nossa igreja para nortear as discussões desta semana. O termo “palavras” presente no tema em questão não deve ser e não o é, de fato, tomado em seu sentido literal, antes nos remonta ao cançaso experimentado por muitos de nós em relação aos muitos discursos que ouvimos cotidianamente e que encontram pouca ou nenhuma implicação em nossas práticas diárias.

Frequentemente nos deparamos com verdadeiras enxurradas de palavras que não mais nos comunicam, devido a já tão conhecida dicotomia “teoria X prática”. É muito comum ouvir no meio evangélico o clichê: “Ele se diz cristão, mas…” Essa afirmação aponta para, pelo menos, duas possibilidades de interpretação: ou a expectativa do falante é exarcerbada e desumanizadora em relação a nós cristãos, ou, de fato, nossa conduta tem se distanciado daquilo que foi proposto e vivenciado pelo Cristo de Deus.

Acreditamos que essa conduta, fruto de uma experiência de conversão e fé, precisa desembocar no compromentimento de cuidado com o outro, no zelar da criação  de Deus, no desafio constante de uma vida mais amorosa, mais bondosa, menos malediscente, menos egoísta, mais engajada com o que se diz crer, mais encorajadora das práticas que estão a serviço dos valores do evangelho que pretendemos anunciar.

Como jovens cristãos comprometidos com o plano salvífico de Jesus Cristo, precisamos nos angustiar diante das palavras vazias, sem interferência nas vivências em sociedade. Precisamos nos comprometer com uma indissociável conexão entre a verdade do nosso coração e o que sai da nossa boca. Precisamos ainda aprender a nos calar quando não houver em nós essa verdade, visto que as muitas palavras poderão convencer o ouvido do homem, mas não tocarão o coração d’Aquele que é O Todo – Sabedor. Com isso não estamos dizendo que tudo o que considerarmos verdade deveremos proferir, afinal, o convite do evangelho é para uma prudência no dizer.

Prossigamos pois, amparados por Aquele que fez do que anunciava a mais pura verdade de Sua existencia. Não nos conformemos, até que olhemos para nós mesmos, e testificados pelo Espirito Santo, possamos dizer: vivo o que creio e o que anuncio, na minha vida é possível que outros sejam testemunhas de “mais que palavras.”

Fannie S. P. Novais

Cegueira e Visão

Publicado em 13 de agosto de 2010 por Pr. Josias Novais

O saudoso escritor português José Saramago, em seu livro, “Ensaio sobre a cegueira” apontou, a meu ver, algumas cegueiras que acometem o mundo ocidental. O consumismo, o individualismo, a competição são algumas das cegueiras que afetam o nosso olhar. O referido livro que serviu de base para um filme que leva o mesmo título, mostra com nitidez o grau de desumanização a que podemos chegar. A cegueira física só fez acentuar a cegueira que já estava nos corações. Logo, a pior cegueira não é aquela que atinge os olhos, mas a que desensibiliza e desumaniza o ser.

Pensando nisso, lembrei-me da narrativa do cego de nascença no evangelho de João (Cap. 9). Os discípulos fazem uma pergunta sobre o cego, mas que na verdade revelou a cegueira deles: “Mestre, quem pecou este ou seus pais para que nascesse cego?”. Para o judaísmo, nenhum castigo que viesse de Deus poderia impossibilitar o homem ao estudo da lei. Contudo, o que para os discípulos era desgraça, para Jesus era a possibilidade da manifestação da Graça de Deus. Disse Ele: “Nem ele nem os seus pais, mas para que nele se manifeste as obras de Deus”.

Lembrei-me também de narrativas atuais, que estão bem próximas de nós. O ir. Adenor de saudosa memória e recentemente a ir. Maria (mãe de Aidê) ensinaram-me profundas lições a esse respeito, digo, ver além do que os olhos físicos podem apreender. Ver a vida com mais esperança. Ver o melhor da vida! 1) Adenor morava numa casa muito modesta, havia perdido uma perna e por causa da diabetes também estava com a visão muito afetada. Entretanto, as poucas vezes que estive com ele, fui impactado com a visão que tinha do agir de Deus em sua vida. Sua visão da bondade do Senhor era capaz de converter qualquer um, inclusive o pastor dele. Disse-me certa feita: “Pastor, não posso mais ler a Bíblia, mas a Palavra de Deus está em meu coração”. 2) A pedido de Aidê fui visitar sua mamãe que tem 96 aninhos. Ao chegar em sua casa, fiquei sabendo que ela havia feito uma cirurgia nos olhos sem muito êxito. O que faltava aos olhos sobrava em serenidade e simpatia. Ao perguntar sobre a sua fé, ela disse prontamente: “Eu já entreguei o meu coração ao Senhor”. Fez, porém, uma ressalva: “O problema é que eu não posso ir à igreja”. A declaração da sua fé em Jesus abriu os meus olhos e respondi: “a Sra. não pode ver o caminho que leva a igreja, mas seu coração já viu o caminho que leva ao Pai”.

Portanto, assim como o cego de nascença desejo lavar os meus olhos nas águas do enviado de Deus para ver diariamente as manifestações do seu amor. Desejo ver a vida como Adenor, na perspectiva da gratidão. Desejo ver a vida como Maria, com mais lucidez e alegria. Senhor, abre os olhos do meu coração!

Canção – 3º Convida – Jardim de Deus

Publicado em 28 de julho de 2010 por Juliano de Almeida

Ouça aqui o Hino Oficial do Convida 2010 – Jardim de Deus
Letra e música de Sizinho Reis. Esta música foi produzida no Yahveh Studio.

Jardim de Deus

Não é porque vamos pro céu
Que temos que desprezar
O mundo que Deus nos deu
A terra onde é nosso Lar

Enquanto aqui morar
E vida o Senhor me der
Que venha o que vier
Assim eu quero adorar

Vou cuidar do Jardim de Deus
Vou cuidar do que Deus criou
Vou louvar a meu criador
Cuidando desse lugar

Vou amar a meu Deus e ao meu irmão
Vou compartilhar esse chão
Semeando amor e paz
Agredir a terra não quero mais

Banquete e Descanso

Publicado em 23 de julho de 2010 por Pr. Josias Novais

As palavras do Eclesiastes: “é melhor ir a casa onde há luto do que onde há festa, porque ali se vê o fim de todos os homens e os vivos aplicam ao seu coração” (7:2) ressoaram mais uma vez em minha consciência como sabedoria e verdade divinas. O óbito da irmã Carmem Cerqueira despertou-me para algumas reflexões necessárias à vida. As duas palavras que formam o título serão os fios condutores desta meditação.

Há aproximadamente um mês e meio estive na casa de Carmem, Laura “Lau” e Ester para uma visita. Passei praticamente a tarde inteira com elas e no finalzinho da tarde estávamos assentados a mesa diante de um verdadeiro banquete. Na terça (20/07) ao ficar sabendo do falecimento de Carmem fui a sua casa e ao chegar lá, reportei-me a última vez que a vi com vida e ao delicioso café já referido, quando repentinamente fui interceptado por “Lau”. Disse ela: “Pastor, o banquete foi preparado por Carmem. Carmem providenciou um banquete pra mim, mas não sabia que estava tão próxima do banquete do Cordeiro de Deus. Entretanto, nosso banquete, regado com diálogo amoroso, comunhão sincera, oração fervorosa e comida farta era uma pequena amostra desse banquete maior, já preparado, que aguarda, pessoas como Carmem, lavadas e remidas no sangue de Jesus.

O texto que li no ofício fúnebre (Quarta, 21/07) foi Hebreus 4 que, em síntese, apresenta a possibilidade do descanso em Deus. Geralmente associamos a morte ao descanso e a vida ao cansaço. Mas é possível viver em descanso apesar do cansaço próprios desse mundo e dessa existência. Em Jesus, o descanso é uma realidade que pode ser experienciada nesta vida. Em Jesus, o descanso não está vinculado a um dia da semana, mas é uma realidade diária. A irmã Carmem apesar do cansaço promovido pela enfermidade sabia muito bem o que significava descansar no amor e na graça de Deus. Seu coração sempre esteve em descanso!

Por conseguinte, desejo participar de mais banquetes como o da casa de Carmem para desfrutar da companhia do outro, preparando-me para o banquete eternal na companhia do Cordeiro Santo e dos remidos. Desejo ser diariamente conduzido pelo Bom Pastor às águas tranqüilas, posto que, quem por Ele é conduzido já sabe como verdade no coração o que significa descanso real e vida em plenitude.

Cristo, paz para as cidades

Publicado em 23 de julho de 2010 por Pr. Josias Novais

As cidades e a Missão da Igreja

Recentemente foi exibido pela rede globo (Fantástico) um documentário sobre “As Mega-Cidades”. Dentre as cidades apresentadas, minha atenção foi fisgada por Mumbai, Índia (19 milhões de habitantes), e particularmente, pela entrevista concedida por um escritor nativo (Suketo Mehta) que tem se debruçado em reflexão sobre os limites da experiência urbana. Em concordância com o escritor francês, Vitor Hugo, Ele afirma que as grandes cidades são esquizofrênicas. E no caso específico de Mumbai, essa síndrome de múltipla personalidade já começa pelo nome, posto que seu antigo nome era Bombaim. Outro indicador dessa patologia urbana, é que em Mumbai existe uma das maiores favelas da Ásia (Dharavi) com 1 milhão e 400 mil pessoas, mas também existe a residência particular mais cara do mundo, avaliada em 4 bilhões de dólares.  Assim sendo, as cidades, com suas contradições e belezas, têm se tornado o símbolo do desafio que a evangelização e o discipulado impõem à igreja contemporânea.

O olhar da igreja cristã para as cidades foi fortemente influenciado pela obra clássica de Santo Agostinho, “A cidade de Deus”. A referida obra é considerada o primeiro livro de filosofia da história que conhecemos. Nele, o autor, tenta explicar a história humana através da metáfora de duas cidades. A totalidade da história seria o resultado da tensão entre a cidade de Deus e a cidade dos homens. A cidade que prevalece, por sua vez, determina os rumos da história.

Do chão dessa leitura da história brotou um modelo de Igreja distante da proposta de Jesus, conforme o evangelho. Primeiro, porque construiu uma pirâmide hierárquica, que havia sido cancelada no lava-pés (João 13:13-15). Ao invés de serva da cidade, em particular e da vida, em geral a igreja se colocou como senhora, régia. Em segundo lugar, porque cavou um fosso que já havia sido tampado e eliminado na encarnação. Em Jesus, vemos Deus e o ser humano numa proposta de reconciliação (João 1:14), mas a igreja preferiu a dicotomia entre o céu e a terra, entre Deus e o homem.

Por conseguinte, em Ezequiel 38, o profeta da esperança faz uma severa crítica à cidade de Jerusalém que havia renunciado a missão que recebeu de Deus tornando-se uma cidade imprestável, um espaço de derramamento de sangue, especialmente de inocentes. Entretanto, o último versículo do capítulo 48 nos diz: “e o nome da cidade será: o Senhor está ali”. O novo nome apontava para o início de uma nova cidade (utopia profética). Apesar das contradições, desigualdades e injustiças das nossas cidades, é possível visualizar a presença de Deus na alegria, na comunhão, na esperança, na solidariedade que acontece em seus becos, favelas, guetos, praças e vielas.

Violência e Mulher

Publicado em 23 de julho de 2010 por Pr. Josias Novais

Defesas incríveis no campo versus ataques violentos na vida

O goleiro do time da maior torcida do país, ao que tudo indica, cometeu a pior de todas as jogadas de sua vida. No futebol, Bruno sempre teve a árdua função de defender o gol, e o fazia com muita competência, mas, fora dos gramados, o camisa número 1 do Flamengo atacou ferozmente a vida da sua ex-namorada, autorizando e/ou consentindo com a sua morte. Bruno já havia dado pistas da sua personalidade violenta quando se reportou a um ato de agressão de seu ex-colega de clube (Adriano), dizendo: “quem nunca ‘entrou na mão’ com sua mulher que atire a primeira pedra”. A frieza de seus comentários e comportamentos, inclusive, preocupando-se com a impossibilidade de sua participação na copa de 2014, seria um “prato cheio” para uma análise psicanalítica da sua personalidade. Nesta pastoral, porém, quero me ater ligeiramente às possíveis causas da violência contra a mulher e apontar a graça de Deus como caminho para a restauração e superação da opressão nas relações humanas.

O caso Eliza Samudio chama a atenção por causa da crueldade do crime, mas, também, por causa da fama de quem ordenou o assassinato. Entretanto, Bruno é, por assim dizer, um protótipo de tantas outras pessoas que cometem diariamente violência contra mulheres, cujas histórias são olvidadas por ene motivos.

A questão da violência contra a mulher é patrocinada em primeira instância por causa das bases machistas/patriarcais sobre as quais o mundo ocidental se assenta. Nesta perspectiva, a teóloga feminista Ivone Gebara diz: “Dentro da análise do gênero numa visão ocidental, a figura masculina representada pelo Pai se torna o princípio, a “arché” da organização e da compreensão do mundo”. Na senda dessa visão a tradição cristã no que tange a questão do mal e no seu esforço para compreendê-lo, produziu uma teologia metafísica caracterizada por um dualismo hierárquico e masculino. Assim sendo, o mal relacionado ao homem é adquirido pela sua liberdade, mas quando se trata da mulher este mal se refere ao seu próprio ser, como elemento intrínseco da sua própria natureza.

Por conseguinte, o apóstolo Paulo na sua carta aos gálatas nos apresenta a possibilidade de superação das barreiras étnicas, hierárquicas, biológicas (também da construção social de gênero) através do discernimento da Graça de Deus. Disse ele: “Todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Desta forma não há judeu nem grego, não há servo nem livre, não há macho nem fêmea, pois todos vós sois um em Cristo (3: 26-28). Apesar das construções desiguais e opressoras que fizemos ao longo da história, a Graça de Deus alimenta as nossas utopias e a nossa esperança de ver a totalidade das relações humanas restauradas e resignificadas.

Dilúvio e Política

Publicado em 23 de julho de 2010 por Pr. Josias Novais

As enchentes em Alagoas/Pernambuco e as eleições

A narrativa do dilúvio que está em nossa Bíblia teve como fonte originária uma narrativa mais antiga sobre o mesmo evento, a saber: a mesopotâmica. Vale ressaltar, porém, que a narrativa tal qual conhecemos é um contra-conto produzido pelos exilados palestinos por volta do VI século a.C em território babilônico. É um contra-conto porque foi gestado pelo povo simples contrastando com o relato mesopotâmico produzido pela elite dominante e usado pela elite babilônica, em especial pelo imperador, para dominar e violentar os escravos do seu sistema opressor e espoliador. Por outro lado, a história do dilúvio não é produto palestinense, pois a destruição com água não faz parte da cultura da Palestina (Cf. Gn.19). Desse modo, os exilados palestinenses apropriaram-se de elementos da narrativa do dilúvio mesopotâmico, recontando-a, a fim de contrapor a dominação opressora dos babilônicos.

Consoante a cosmovisão mesopotâmica, abaixo da terra há água, de sorte que esta flutua sobre abismos de mares. O império opressor se autodenominava como o sustentador do firmamento. O requisito para tal sustentação era cultuar o imperador, pois só assim o perigo do dilúvio estaria afastado. Assim sendo, a narrativa mitológica era usada para fins de dominação política e religiosa.

O dilúvio concreto em Alagoas e Pernambuco apesar dos seus óbvios distanciamentos possui algumas aproximações da narrativa mitológica do dilúvio. Fazemos aqui um recorte para enfatizar sumariadamente o discurso político-ideológico construído sobre os escombros das tragédias. Para o Pr. Wellington Santos (Igreja Batista do Pinheiro-AL), a tragédia em seu estado “não é natural, mas política”. Nesta perspectiva, o Pr. Paulo Nascimento (Igreja Batista Forene-AL) que visitou algumas cidades com o Pr. Wellington assinalou em seu blog: “E o nojo nos invadia só de pensar que provavelmente, nesse ano eleitoral, as enchentes vieram preparar um terreno hiper-fértil para candidatos que utilizarão sem dó as necessidades da população para comprar votos”.

Destarte, em concordância com Paulo e Wellington, minhas entranhas reviram ao também pensar na possibilidade de que os políticos utilizarão inescrupulosamente este incidente para os propósitos político-eleitoreiros mais sujos possíveis. O imperador babilônico utilizava o mito diluviano como ferramenta ideológica para manter o controle sobre as vítimas da sua opressão. A ameaça da destruição pelas águas (violência simbólica) era, por assim dizer, pequena, diante da prática cotidiana da violência real. Os imperadores da política nacional, em perversidade compatível ou maior, utilizam a desgraça que sob algum aspecto provocam, para continuar dominando o país e as mentes. A desgraça do povo é perversamente utilizada como outdoor das suas campanhas. Nossa esperança, porém, é que o encantamento seja quebrado e que o nosso povo escreva, apesar da dor e das perdas, uma nova narrativa da política brasileira.

Sobre a Felicidade

Publicado em 15 de junho de 2010 por Pr. Josias Novais

No dia 29/05/10 assisti no ‘Jornal Hoje’ uma reportagem sobre um pequeno país monárquico localizado no Himalaia, entre a China e a Índia, chamado Butão. O curioso neste país é que além do PIB (Produto Interno Bruto), isto é, as riquezas produzidas pela nação, eles medem a felicidade, cuja sigla é FIB (Felicidade Interna Bruta). O rei de Butão, interpelado sobre o pálido crescimento econômico do seu país, afirmou que em sua terra o bem-estar da população, sua qualidade de vida é mais importante do que a soma dos bens e serviços finais produzidos. No Brasil, está em trâmite no senado federal uma emenda constitucional que prevê a garantia e o direito a busca da felicidade. Tal emenda encontra respaldo num movimento (‘Mais Feliz’) articulado por artistas e intelectuais brasileiros, destacou o repórter Evaristo Costa.

A partir da referida reportagem fiquei pensando sobre um possível significado da iniciativa Butanesa. Num tempo onde a economia domina, onde o dinheiro é o escopo fundamental do mundo, a FIB de Butão aparece como uma ponta de esperança, alertando-nos que a vida humana é mais valiosa que produção, acúmulo, enriquecimento e consumo, conforme a ideologia do sistema capitalista selvagem que nos circunda. E que, no mínimo, toda riqueza produzida deve ter reflexos concretos e positivos na vida das pessoas. Mas será que a felicidade pode ser medida? No caso do Brasil, será que uma lei garantirá efetivamente que o nosso povo seja feliz? O espaço aqui é insuficiente para aprofundarmos nossa reflexão sobre o tema em questão. Não contive, porém, a vontade de partilhar algumas idéias.

Concordo com o Pr. Ed René Kivitz quando afirma no seu livro ‘Vivendo com propósitos’: “A felicidade não é um lugar aonde se chega, mas sim um jeito como se vai”. Kivitz ainda propõe a troca do termo felicidade por contentamento. A palavra contentamento deriva do latim ‘contentu’ (contido), que nos remete a idéia de conteúdo. Logo, contente ou feliz é a pessoa que sabe extrair o conteúdo de cada situação, inclusive que sabe explorar as riquezas que há em si mesmo. Que sabe emprestar significado aos pequenos momentos da vida. Que apesar dos percalços do caminho teima em continuar caminhando fortalecido pela fé no seu Senhor (Leia: Fp. 4:10-13).

Concluo com a sábia sugestão do poeta brasileiro, Olavo Bilac: “Que fazer para ser como os felizes? AMA”.

Futebol e fé

Publicado em 4 de junho de 2010 por Pr. Josias Novais

Entre o pragmatismo de Dunga e a fé corajosa de Abrão

Todo o país estava apreensivo até o anúncio dos nomes dos jogadores que comporiam a seleção brasileira para a copa na África do Sul. O técnico Dunga foi sigiloso até a última hora, mas, como esperado, foi pragmático em sua escolha. Não levou em consideração o clamor dos torcedores pela convocação de Neimar e “Ganso”, ambos do Santos-SP, por exemplo. Optou pelos jogadores que já havia convocado e testado em outras oportunidades. Na órbita do futebol o pragmatismo de Dunga é aceitável, mas o mesmo não acontece na órbita da fé, posto que a fé está para o risco, para a coragem.

Na fé, a vitória já se estabelece quando o convocado aceita o desafio de caminhar com Deus sem uma agenda a priore, sem conhecer o itinerário, sem mapa nas mãos, sem preocupar-se com os resultados. Em Gênesis 12:1-4a, o registro da convocação de Abrão: “Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra. Assim partiu Abrão como o SENHOR lhe tinha dito (…)”.

A fé é um dinamismo que provoca mudanças radicais na vida. O paradoxo da fé consiste em abandonarmos seguranças e certezas para caminhar com Deus no deserto da promessa. Deste modo, quanto menores forem às certezas, maior será a dependência do convocado. A promessa por sua vez, era ser uma grande nação abençoadora. Entretanto, a fé não fita seus olhos no “troféu da promessa”, mas n’Aquele que prometeu. O que jamais se cogita é caminhar sem Ele.

Por conseguinte, em hebreus 11 temos a lista dos vencedores/heróis da fé. Abrão e tantos outros não seriam considerados campões ou bem-sucedidos pelos critérios hodiernos, mas sem sombra de dúvida são pessoas das quais o mundo não foi digno de conhecer. Assim, o time de Deus é composto por gente extraordinariamente simples, que espera e vê realizado o que fora prometido por Deus, sem precisar de certezas nem de provas. Aceite hoje a convocação da parte de Deus de viver simplesmente pela fé n’Ele. Este é o melhor de todos os caminhos e a maior de todas as vitórias!